Porque este amor?



2005/10/24 O fim
Tinha vindo enterrar o pai à terra onde nascera, cumprindo assim o seu desejo. Foi um dos seus últimos dois desejos, o outro estava agora a cumprir. Estava parado diante de uma casa estranha, onde vivia uma mulher que ele nunca vira, para entregar um envelope. Pelas informações que lhe deram era aqui que ela vivia. Aproximou-se, bateu suavemente à porta mesmo assim incomodando alguns cães. Uma menina de onze anos abriu a porta que surpresa olhou para ele como se fosse o carteiro.
- A tua mãe está? – Perguntei-lhe. Ela abonou a cabeça que sim e correu chama-la. Logo apareceu uma mulher bonita, com um ar jovem e sorrindo, como perguntando o que desejava.  
– Desculpe incomodar! A senhora chamasse Susana Andrade?
Ela sorriu mais uma vez, e curiosa respondeu: Não, eu sou a Ana, minha mãe é que é a Susana. Ela vive comigo, está na sala a ver televisão. Como lhe custa andar é melhor entrar para falar com ela.
- Desculpe, não quero incomodar! Venho do funeral do meu pai.
- As minhas condolências! – Interrompeu ela, fazendo um ar de tristeza.
- Obrigado! Ele nasceu cá, mas saiu muito novo de cá e nunca mais voltou. Foi desejo dele de ser enterrado cá e de entregar este envelope à sua mãe, a senhora Susana Andrade. – Estendi a mão com envelope. Ela ficou curiosa e por momentos fez-se um grande silêncio.
- É melhor ir…- disse eu, tentando me afastar daquela sensação estranha
- Desculpe! Fiquei suspensa com esse envelope… - pegando nele, convidou-me a entrar.
- Agradeço! Mas ainda tenho uma viagem à espera, é melhor ir, pois já cumpri os desejos do meu pai – e assim me afastei daquela casa, com ela olhando o estranho envelope. Nem eu sabia o que tinha e nunca o soube.
     
1980/05/18 A história
Porque é que te amo? Se passas por mim sem ligares e só aceitas os meus gestos de amor, por piedade ou por te sentires especial diante dos teus amigos. No entanto, todas as tardes venho para este banco do jardim só para te ver passar, roubo uma flor a Dona Maria para te oferecer, algo que tu aceitas com um sorriso e um passar a mão pelos cabelos, realçando ainda mais a tua beleza e continuando o teu caminho as risadas com as tuas amigas. Talvez não saibas, mas tenho encontrado essa mesma flor mais a frente no caixote do lixo, mesmo assim estou aqui assentado no banco mais uma vez a tua espera, com uma rosa para te oferecer, já tantas vezes que o faço, acho que a Dona Maria já finge que não me vê tira-la, talvez porque um dia ela também amou assim… Penso no porque de te amar tanto se não me amas um pouco… o que tens de especial? Há tanta mulher bela por ai, talvez alguma me amasse e eu aqui, esperando por ti… por alguém que só sabes da minha existência, porque me imponho, como uma erva daninha num jardim. Tantas vezes penso me levantar, deixar aqui o coração, ir embora… porque com o coração não sou capaz. As folhas de Outono que caem como chuva. Apagarem os meus passos e sumir, ser outra pessoa. Mas não consigo, pelo menos hoje não! Tenho de te ver, talvez amanhã consiga ou talvez nunca o consiga…
     Hoje olhei-me ao espelho e pela primeira vez me senti feio, depois de ontem ler o que escreveste na carta de amor que te escrevi. No dia seguinte devolveste-ma com a tua amarga frase: Vai-te olhar ao espelho… acho que tens razão, sou um rapaz banal e por ai há muitos mais dignos de ti. Mesmo assim, vim te dar a flor, olha-te nos olhos e com os meus te amar por segundos. Apesar de passares por mim como quem passa por uma erva ruim, sei que tenho de especial para ti. Não devia amar-te assim, não ao ponto de não consegui passar um dia sem te ver. Faço tudo para conseguir um momento perto de ti ou melhor, o mais perto possível! Pois nunca me queres por perto, apesar de longe, eu sinto a tua beleza roçar no meu coração e sabes, de tanto te observar, conheço os teus gestos como a minha alma, mesmo sem o dizeres consigo sentir o que te vai no coração. As vezes, sinto que estas tristes. Acho que só eu o sinto, pois estás sempre rodeada de gente e ninguém parece perceber isso. Indiferente, brilhas entre eles, como se fosses uma estrela… as vezes penso que são meus olhos que te vê assim, que afinal não passas de uma mulher bela e sensual, como muitas. Ilusão minha, nenhuma me fazia estar aqui a espera todas as tardes, roubar uma flor e depois, tens sempre tanta gente a tua volta que deves ter mesmo esse brilho de estrela… na hora do costume, vejo-te lá ao fundo do jardim e o meu coração corre para ti, mesmo antes do corpo se poder mexer. Já ele te beija e eu aqui no jardim esperando por estes segundos. Sei que tudo vai acontecer como sempre, quando passares aqui ao meu lado, levanto-me e ofereço-te a flor sem dizer uma palavra, apenas te olhando e tentando ficar o mais tempo possível junto a ti e vais sorrir, mexer no cabelo, sem nunca parares e lá te vejo sair do jardim, sem me mexer do sítio na esperança de olhares para trás ou algo assim…depois, lá sinto as risadas e quando deixo de te ouvir, vou atrás do teu perfume, não para te seguir e sim, para ver se levaste a flor. Mais uma vez a encontrei no lixo. No caminho para casa penso se alguma vez levaste a flor, não sei… lembro-me da primeira vez que a descobri no lixo, sei que não é de um homem, mas confesso que chorei. Senti ódio, não de ti e sim de mim, ódio de não ser capaz de partir, deixar de oferecer-te flores. No dia seguinte, sempre estava eu a espera de ti. Desta vez seria diferente, não voltaria aquele banco do jardim, pelo menos amanhã. Dizia eu vezes sem fim! Mas voltava sempre e muitas vezes ainda tentava te ver por ai…
    O dia acordou a chorar, como eu. Chovia muito e tinha decidido não ir ao jardim, como sempre pensava em cada acordar. Porém, hoje havia algo no ar… tudo iria mudar, nada seria como antes e por isso meu coração chorava. A medida que o relógio se aproximava da hora, mais insuportável era a dor no peito que me sufocava a alma e ao faltar só uns minutos, não aguentei! Sai a correr pelas ruas com a chuva a tentar agarrar-me, corri o máximo que pude! Roubei a flor à Dona Maria e cheguei ao jardim mesmo no momento em que ela ia passar, protegida por um guarda-chuva rosa, juntamente com algumas amigas, as habituais! - Hoje o teu chato não veio – brincavam as amigas com ela, sem terem reparado que ele tinha chegado. Aproximei-me com uma saudade imensa no peito, olhei-a nos olhos e sem lhe oferecer a flor. Perguntei: Porque te amo tanto assim? Ela ficou silenciosa, sem se mexer. Esperei uns segundos e caminhei na frente dela sem pressa, a chuva cobria o meu corpo e escondiam as lágrimas que meus olhos deixavam cair e ao chegar até ao caixote do lixo, virei-me para ela, as amigas tinham ficado para trás. Olhei-a durante alguns minutos, pouco metros separavam nossos corpos, mas distancia entre os nossos corações nada a conseguir vencer. O tempo parecia ter parado, fiz um esforço enorme para desviar meus olhos dela, quebrar a pausa no tempo. Voltei-me e joguei a flor no lixo, como ela sempre fazia. Meus olhos seguiram o cair da flor como se ela caísse em câmara lenta. Deitei os olhos no chão e comecei a caminhar, só consegui dar uns passos. Ela gritou: Espera! Parei sem me voltar, com o medo de tudo. Até que senti uma mão no ombro, virei-me e lá estava ela, bem pertinho de mim… olhou-me nos olhos e eu nos dela, como se lhe tentasse tocar. Tinha o rosto cheio de chuva ou de lágrimas… limpando o rosto disse: desculpa, desculpa por não te amar assim… ambos ficamos em pausa e depois, algo clicou no Play e cada um seguiu o seu caminho. A chuva parecia ter ficado suspensa, não a sentia apesar de sentir as lágrimas caírem do meu rosto. No dia seguinte passei pelo banco daquele jardim, com a rosa roubada a senhora Maria, quase esperei por ela. Antes de chegar deixei a rosa no banco e fui apanhar o autocarro, mudei de mundo, apesar de a amar tanto… com a cara colada no vidro do autocarro, via a paisagem fugir como os meus sonhos. Fiquei imaginando o que faria ela quando encontra-se o banco vazio, apenas com a rosa lá… talvez a jogasse no lixo…
    
2005/10/24 Conclusão
Ana entrou na sala com o envelope na mão, entregou-o à mãe dizendo: Deixaram para si…
- Quem?
- Um homem… era do pai que faleceu e deixou para ti…
- Estranho… - disse ela abrindo o envelope, onde estava uma espécie de diário com o título: Porque te amo? Nele não havia mais nada do que datas e em cada dia, uma pétala de rosa e lembrou-se

1980
Na hora habitual ela passou, desta vez vinha sozinha e bem devagar. Quando chegou ao banco do jardim, viu que estava vazio, havia nele apenas uma rosa. Assentou-se e olhou aquele jardim como nunca tinha olhado. Sentiu-o tão vazio… pegou na rosa e não conseguiu evitar uma lágrima, disfarçou-a como se alguém a tivesse a ver e foi-se embora levando a rosa. Nunca mais o viu, nem outra rosa encontrou. Todos os dias passou a ir até a Dona Maria e comprar uma flor. Levava até casa e punha-a na janela do seu quarto. Nunca soube mais nada dele. Apesar de isso todos os dias ia comprar uma flor para a sua janela, sempre que olhava para ela sentia-se amada como nunca uma outra mulher o fora… a cada dia que passava, gostava de um dia o voltar a ver para lhe responder a pergunta que naquele dia de chuva lhe fez… porque te amo tanto assim? Porque sem esse amor, não era hoje uma mulher que sabia amar como ele.

Comentários

  1. Acho que nao tenho palavras pra te dizer o quanto achei maravilhoso perfeito lindo de mais teu texto.Parabens poeta lindo

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