A rosa

Começou por ser uma tentativa de um conto, ficou incompleto como acaba a vida de alguém e tudo fica por viver, por escrever...

Deitada sobre a areia da praia deserta, seu corpo era acariciado pelo mar, quando uma onda vinha tentar despi-la da sua frágil roupa. Gostava de ficar assim, olhando o céu estrelado… sentindo o mar puxa-la, já que o mundo dos homens a tentava expulsar. Sempre vira as casas como muros contra ela, muros que a faziam sentir-se presa. Ainda bem que tinha aquele bocadinho de mar, onde quase ninguém ia. Era prefeito para ela se libertar e fugir, como se fosse um barco navegando naquele mar que tanto parecia ama-la… ali não se sentia só, sempre se sentia só no meio da multidão e ali, sentia-se amada por algo que nem sabia bem o que, talvez pela natureza… sempre desenhava um coração como um amo-te para aquele lugar, antes de ir embora. As ondas acabavam por leva-lo, era como o amor, frágil… pelo menos, nunca a amaram com a força que ela amava aquele lugar. Mais uma vez uma onda invadiu seu corpo e ela se sentiu abraçada, amada e olhava as estrelas como um presente que alguém lhe ofereceu, a lua como o seu cofre mágico, onde ela guardava os seus pensamentos mais íntimos e as emoções mais belas. 
Na hora da partida, sempre se sentia triste, porém tinha de deixar o lugar antes de o dia nascer, para não ser descoberta pela vida crua, que se vivia dentro dos muros e como já faltava pouco para nascer o dia. Guardou seus pensamentos na lua e desenhou o coração, o seu amo-te para aquele lugar e partiu com a noite, quando o dia nasceu já não se via nas ruas, tal como uma estrela, se escondeu ao nascer do sol. Voltaria a brilhar quando a noite chega-se… assim foi, no dia seguinte apareceu com a noite no lugar de sempre. A sua ainda longa viagem pelos montes, decorria sempre suavemente seguindo a frescura do mar, que logo parecia chama-la. Depois de chegar ao pedacinho de praia, libertava o pensamento como se fosse uma gaivota sobre o mar. Apenas queria existir ao máximo naquele lugar, enche-lo como ela se sentia cheia. Mas nessa noite seus olhos esbarraram no seu coração que o mar, ao contrário do costume, não tinha apagado. Ficou docemente encantada! Aproximou-se devagar e para sua surpresa, alguém tinha desenhado um coração e escrito “também te amo". Ajoelhou-se e examinou o coração misterioso, como se abrisse um presente. Era um pouco mal desenhado, pensou… porém, tinha algo de belo e tinha sido marcado muito profundamente, como se aquele amor fosse profundo. Ficou assustada com a possibilidade de não estar só, levantou-se rapidamente e olhou em volta muito profundamente, a escuridão pouco deixava ver e por isso escutou o máximo que pode, embora só conseguisse ouvir o mar cantar para ela. Manteve-se sempre em alerta e teve muito cuidado para não se abandonar nas ondas, como costumava fazer. A noite passou sem ela conseguir notar algo que fosse que lhe pudesse dizer que havia ali mais uma pessoa, só o mar e a brisa caminhava por ali. Antes de a noite chegar ao fim, desenhou o seu coração como sempre, mas desta vez escreveu o seu nome “Estrela” bem no centro do coração e fugiu, como a escuridão fugia do sol.
Na noite seguinte, ela andou mais depressa, estava curiosa e assustada com o que iria encontrar. Chegou mesmo a correr, algo que ela quase nunca fazia. Assim que chegou à praia, procurou o seu coração e lá estava outro desenhado ao lado do seu, com algo escrito no centro, como ela fizera. Só que em vez de um nome tinha “EDTC” não conseguiu entender o significado das àquelas palavras e a única coisa que descobriu é que já não estava só e a partir de agora tinha de ter muito cuidado, pois alguém descobriu o seu pedaço de amor e isso podia ser perigoso. Alguém podia querer-lhe fazer mal, roubar o seu amor que era aquele lugar… deixou-se cair na areia como se a alma a tive abandonado, depois apagou tudo, como se apagasse as pegadas que levavam aquele lugar e assim ficar secreto como sempre fora, só para ela. O seu amor por aquele lugar, a sua liberdade na noite era mais forte do que a curiosidade, apesar de assustada havia no seu coração mel pelo coração desconhecido, havia o desejo de um coração ser desenhado noutro. Sabia que o mar não o faria, ele tinha o seu jeito de amar e lá no fundo até imaginava que se pudesse ver o mar todo, teria a forma de um coração para ela, mas aquele era desenhado por algo humano e disso tinha medo, sempre teve… talvez tenha nascido na raça errada, talvez devesse ser uma brisa ou uma onda… que loucura, mas se sentia mais assim do que humana. Nessa noite, apenas se imaginou em várias formas de beleza e quando a hora de ir chegou, não desenhou o coração na areia. Em vez de isso, abraçou o mar como pode e foi-se como a noite se foi com os primeiros raios de sol. 
Nunca se sentiu de dia, nem sequer se imaginou nele, só quando a noite chegava seu coração se abria como uma flor nocturna e seus cabelos dançavam ao vento. Depois caminhava por entre os bosques até chegar ao seu pedaço de amor. Porém, agora ai sempre com o receio de encontrar alguém, se isso acontecesse seria como se alguém invadisse seu coração e tomar posse dos seus tesouros mais secretos. Quando chegou nem se atreveu olhar para a areia da praia, seus olhos apenas navegavam nas ondas do mar. Escutava, como se pudesse sentir o rolar de um grão de areia… só o mar a chamava, sem resistir mais, rolou seus olhos na areia e logo viu algo escrito. Seu coração parecia pular do peito e voar. Apertou-o com as mãos, como quem aperta algo precioso e caminhou em direcção ao escrito, mas andava muito devagar como se as letras pudessem se assustar e voarem. Quando chegou perto leu algo que estava escrito em letras grandes “segue os meus passos “ e logo a frente viu pegadas, eram de alguém que estava descalço e perdiam-se na escuridão… pensou em não as seguir, pois poderia estar alguém escondido para a agarrar. Recuou um pouco, como se fosse fugir, mas algo a agarrou. A sua curiosidade, o mel daquela sensação que lhe percorria o corpo e avançou, agarrada pela mão do mistério e pisou cada pegada, que aos poucos se dirigiam para umas rochas. Em vez de alguém, encontrou uma rosa vermelha que perfumou a noite e a sua alma como o mais doce dos perfumes, por momentos esqueceu tudo, o medo, o lugar e até alma, toda ela era perfume. Que maravilhosa… (pensou…) que tesouro… agarrou-a, aproximou-a dos lábios e beijou-a com o tempo de uma noite. Feliz do que tem um coração como esta rosa… disse, suspirando… como existia só na noite, pela primeira vez esqueceu-se de fugir com a noite, foi a noite que a esconde, com um manto de estrelas e não deixou que o sol a toca-se. 
Quando o dia nasceu, na praia dois garotos lançavam um papagaio no céu de um azul mais belo de todos, corriam como se pudessem voar e de repente viram uma mulher junto às rochas, deitada no chão agarrada a uma rosa, parecia dormir. Um deles tocou-lhe, mas continuava imóvel. - Está morta? – Perguntou o outro. – Parece que sim… - e logo fugiram, voltando com mais gente. – É a Estrela, a que perdeu o homem no mar – disse uma voz. – Coitada… perdeu o juízo e andava só pelos montes, como se andasse fugida… – acrescentou outra voz. – Está morta? – Perguntou alguém. – Há muito tempo que estava! - Suspirou uma mulher…

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