A princesa e o criado

Era uma vez uma terra, lá longe… tão longe que não consigo imaginar. Nela vivia um rei, o rei dos sete reinos. Pois tinham sido sete os reinos conquistados por ele. Tinha uma linda filha, a Princesa bela, era assim chamada porque a fama da sua beleza ia longe. Muitos príncipes queriam casar com ela, mas seu coração esperava um príncipe encantado, um cavaleiro corajoso que a salvaria de um dragão. Passava os dias na sua torre, distribuindo beleza e esperando pelo seu príncipe encantado. Quando não estava lá, costumava conversar com Rodolfo. Era filho de um grande cavaleiro que tinha servido o rei, mas tinha nascido feio, torto, desajeitado e pouco servia para alguma coisa. Por piedade e amizade ao seu pai, o rei cuidou dele e deixou-o viver no estábulo em troca de alguns serviços domésticos, como cuidar dos cavalos e era ao pé dos cavalos que ele morava e dormia, num monte de palha misturado com estrume. Lá da sua torre, a Princesa costumava chama-lhe nomes, mas no fundo tinham-se tornado amigos ou melhor sempre que ele não queria fazer alguma coisa que ela mandava, ameaçava-lhe cortar a cabeça, e assim eram amigos. Poucas vezes ela saía da sua torre e quando saia, ele acompanhava-a sempre nos seus passeios e discretamente sentia um amor por ela. Apesar de para ela não passar de reles o criado. Desabafava sempre com ele, mas logo o tratava mal! Quanto mais o tempo passava mais ele gostava dela, tudo em segredo ou ficaria sem cabeça se a Princesa soubesse esse segredo. Ele até fazia duros sacrifícios por ela, certo dia num desses raros passeios, ela fez um comentário à sua pessoa, que cheirava mal e que devia tomar banho como ela de seis em seis meses para cheirar bem. Nem sabia o que isso era, só depois de umas breves explicações ficou a saber e numa manhã fria lá se resolveu tomar banho para cheirar tão bem como ela queria. Dirigiu-se a uma ribeira perto e descalçou a bota e meteu o pé na água, estava tão fria que dou um pulo tão grande que sem querer acabou por cair na ribeira. Só queria lavar o pé e acabou por quase se afogar. Porém lá conseguiu sair e mesmo a tremer de frio, apesar do susto, ficou feliz por ter tomado banho e cheirar bem. Embora para si não notasse tanta diferença a não ser o frio e de se sentir mais leve. No próximo passeio aproximou-se mais junto a ela para ver se notava, ela nem ligou e a partir daí decidiu nunca mais tomar aquela coisa horrível de banho. Assim a vida dele voltou a rotina habitual, limpar o estábulo, escovar os cavalos, ajudar na cozinha e conversar com a Princesa, gostava de conversar e de estar perto dela e assim vivia a parte bela da sua vida, até ao dia em que um dito príncipe encantado de um reino distante, parou debaixo da janela da Princesa e logo coração dela palpitou. O príncipe também gostou muito dela, dizia-se, caçador de dragões. Para Rodolfo foi uma desilusão, até porque não havia dragões e ele sabia mas a Princesa parecia louca por ele e nem se importava com às mentiras. Debaixo daquela torre logo o príncipe prometeu mundos e fundos ao ponto de como prova de amor trazer um coração de dragão. Rodolfo bem tentou avisar princesa que dragões não existiam, mas além de o ameaçar de lhe cortar a cabeça, obrigou-o a ir com ele e assim humilhado se a juntou ao príncipe na caça dos dragões que existiam só na sua cabeça! Pensava, como a Princesa acreditava naquele príncipe pouco encantado… para ele nem príncipe era! Além disso, andava tão arranjado que parecia uma mulher, até cheirava bem! Os dias passavam e a viagem nunca mais chegava ao seu destino, era óbvio porque, não havia dragões. Como estava farto daquela caminhada, tentou fazer um acordo com o príncipe e disse: Nós os dois sabemos que não há dragões o melhor é vossemecê matar um urso e leva-lhe o coração, ela nem vai notar! Eu é que não quero saber de lutar com ursos ou qualquer animal selvagem. O príncipe sentiu-se insultado, com um tom de arrogância gritou: oh criado reles! Como ousas duvidar das minhas palavras, se não fosse pela minha amada cortava-te já a cabeça. A minha família sempre caçou dragões e vou levar um coração de dragão a minha amada, como prova do meu muito amor. Depois cuspiu em Rodolfo. O pobre criado calou-se e pensou que bicho é que ele chamaria de dragão… talvez a um lagarto qualquer! Finalmente a viagem chegou ao seu destino. Do alto de uma montanha saia fumo, logo o príncipe começou a gritar: Vês às fumaças do dragão? Inculto, reles… Rodolfo tentou dizer que aquilo parecia ser uma das grutas de um vulcão, mas o príncipe não o deixou, mandou-o calar! Desceu do cavalo, puxou a sua espada e disse: Espera aqui por mim! Não demorou muito que de dentro da gruta começaram a sair uns gritos, o que lhe parecia ser ele a imitar um Dragão em desespero, lutando pela vida. Fosse lá o que fosse, ele estava desejoso de voltar para a sua estrebaria e a sua amada de coração perdido por este príncipe mentiroso. Pensava, o quanto a vida era injusta e suspirou. Como se ele próprio fosse o Dragão no seu ultimo suspiro… não fazia ideia de quanto tempo estava ali, horas talvez! Por fim, o silencio e lá apareceu ele com uma pedra grande, que parecia ter forma de um coração bem mal esculpido. Ele bufava, mais pelo peso da pedra do que pela luta imaginar que teve com o dito Dragão. Olhou-me como se fosse um pouco de estrume e mandou-me pegar no coração para o levar a sua amada. Tentei dizer-lhe que era a penas e só uma perda, mas ele me cuspiu mais uma vez, me chamando de ignorante. Pois todos os Dragões se transforma em perda ao morrer e como ele erra um caçador afamado por todos os reinados, arrancou-lhe o coração ainda com o Dragão vivo e sem mais uma palavra, disse: vamos! Eu é que levei aquela pedra chamada de coração, foram caminhos difíceis mas lá chegamos e a Princesa ficou encantada com a coragem do jovem príncipe e logo a li lhe jurou amor eterno, o casamento foi logo marcado. A minha ajuda foi precisa e como gratidão, recebi uma refeição especial no dia do casamento que comi na estrebaria. Por essa altura já me tinha costumado com o facto de a perder e continuar a minha vida servindo o meu rei, pois ele sempre fora bom para o meu pai (grande cavaleiro). Depois de um ano a Princesa teve uma menina, o príncipe talvez por desconsolo de não ser um filho barão partiu para a guerra, para conquistar mais um reino. A Princesa ficou sozinha durante anos, nos quais perdeu o seu pai e depois a mãe. Mas o príncipe agora Rei, nunca apareceu e lá andava na conquista de mais reinos. Eu que tanto a amava, dava-me um nó no coração de a ver tão abandonada, com a sua menina já uma princesinha com que brincava muito. Poucas vezes falava com a rainha, ele ficava lá no seu castelo, esperando o rei voltar. Um dia ela soube através de um cavaleiro de que ele tinha tido outros filhos por lá e a única frase que lhe ouvi, foi um suspiro com um: a família agora é maior e lá voltava para o seu castelo. Sentia o meu amor pequeno, ao lado do dela por esse Rei sumido. A minha vida tinha mudado pouco, fazias as mesmas coisas de sempre e o momento bom do dia era estar com a princesinha, as vezes fazia-me perguntas sobre a mãe e outras vezes sobre o pai e assim os anos foram passando. Finalmente o Rei voltou, os sete reinos eram agora 13 e pela primeira vez desde há muitos anos a Rainha sorriu. Parecia que finalmente a felicidade tinha chegado ao castelo e passei a ver menos a princesinha e a ter mais trabalho. De noite subia para um monte e olhava as estrelas, pensava nos velhos tempos e isso era uma espécie de lugar encantado para mim. Com o passar dos dias os problemas voltaram, o Rei estava frio, violento e até se comentava que batia na Rainha, algo que me revoltava! Porem, nada podia fazer, a não ser estar sempre ali o mais perto possível dela. Mais tarde apareceu uma segunda Rainha vinda de um, não sei de que ele conquistou. A verdade é que a legítima Rainha foi escondida nas masmorras, com a mentira de estar possuída por uma bruxa e da princesinha nunca mais ouvi falar. Sempre que podia tirava algo da cozinha e as escondidas levava-lhe, ela agradecia sempre e numa dessas vezes, confessou-me de que era a pessoa em que ela mais confiava, que sempre estivera do lado dela como um bom amigo e por isso tinha um pedido para fazer, encontrar a sua menina. Eu não a queria deixa-la só, mas não podia de deixar de cumprir o seu pedido, até porque me ameaçou mandar cortar-me a cabeça, desta vez a chorar… pelas conversas secretas que tive pelo castelo, fiquei a saber que a princesinha foi levada para um convento num a duas semanas de viagem. Contei a minha Rainha e ela me dou a missão de a resgatar, algo bem difícil para mim, pois não era um bravo cavaleiro como o meu pai, nem sequer podia com uma espada! Minha Rainha disse-me que tinha um bom coração e isso me bastava, foi assim que parti com um nó no coração. Pedi a uma das cozinheiras que tomasse conta dela, era uma pobre como eu a quem lhe ofereci muito dinheiro que não tinha, que lhe daria quando a Rainha voltasse ao seu trono. Trazia comigo um bom cavalo e uma pequena espada que mais parecia uma faca grande, muitas vezes parei para treinar, por não saber o que ia encontrar. Depois de mais de uma semana cheguei ao convento, nada do que eu imaginara podia me preparar para o que ia encontrar, um grupo de cavaleiros rebeldes tinha entrado no convento, violando freiras e matando. Meu coração ficou negro, pois esperava o pior. Havia corpos por todo lado, nus, meios despidos, cortados, as vezes abertos ao meio. O odor era horrível, possivelmente ela seria um desses corpos, quase nem valia a pena procurar! Tentei reconhece-la por ai, a cada corpo virado ou olhado sem ser ela me consolava embora lá no fundo soubesse que o próximo seria ela. Apesar do esforço sobre humano nada encontrei! Sai para fora e vomitei até não poder mais e caindo no chão chorei como só a dor mais forte chora, por ali fiquei perdido e sem saber como voltar. Num dia apareceram por ali umas mulheres vestidas de freiras que gritavam ao verem o próprio inferno e entre elas estava a princesinha. O meu coração pulava de alegria, mas me mantive escondido e só quando pude, agarrei-a, tapei-lhe a boca e arrastei-a para a floresta e custou-me muito, pois ela se debatia feroz mente. Quando vi que estávamos um pouco afastados, amostrei-lhe a minha cara e logo me abraçou chorando. Depois de lhe contar todos os pormenores, ela contou-me que tinham ido em peregrinação a um outro convento e com isso se salvou. Partimos imediatamente para levar o que a minha Rainha me pediu. A princesinha brincava comigo que eu era o seu cavaleiro, mas que tinha de tomar banho de seis em seis meses pois cheirava muito mal! Por experiencia própria, nem liguei! Tentamos chegar o mais rápido possível e perto do castelo, deixei a princesinha escondida e prometi voltar de madrugada assim que falasse com a minha Rainha. Mal entrei por onde as pessoas circulavam ouvi comentários do que acontecera por ali… corri para o castelo e como uma espada me caindo em cima fiquei a saber que a minha Rainha tinha sido queimada por bruxaria, o meu amor, a minha vida tinha partido… desesperado nada fiz, foi como se a morte me tivesse pegado e cai no chão sem pensamento. Quando me acordaram vi pessoas a chamarem por mim, eu não queria acordar, mas a vida me agarrou e de novo em pé me encostei e depois corri ate a ribeira e gritei de raiva, de tudo! Depois de um tempo me lembrei da princesinha, a dor que teria lhe dar… num esforço enorme, caminhei em direcção ao castelo, no meio do caminho ouvi um barulho, uns gemidos… me aproximei devagar, era o Rei e uma das suas servas. Fui por trás, agarrei-lhe a cabeça e lhe cortei a garganta, com uma raiva louca e só deixei quando caiu se esperneando no chão, a morte o estava agarrar. A serva imóvel gritava, virei-me para ir embora com a espada cheia de sangue na mão e num movimento rápido atirei-a contra a serva ficando cravada na testa deixando-a silenciosa. Voltei à ribeira me lancei nela, limpando o sangue e fui ter com a princesinha. Como está a mãe perguntou ela? Eu engoli as lágrimas e disse-lhe: está bem! Mas mandaram-na para longe…. Foi o que me saiu! Vamos ter com ela? Perguntou com esperança. Passei-lhe a mão pelos cabelos, vamos sim e partimos para um lugar incerto. Os anos passavam e a princesinha era cada vez mais mulher e eu, um velho, sempre inventava o mais longe possível para onde tinha sido levado sua mãe. Éramos viajantes, de dois passamos a ser três pois ela se tinha apaixonado por um trovador que passou acompanhar-nos. Um dia em quanto eu recuperava forças ela se aproximou de mim e disse: Já passaram tantos anos que a mãe deve estar morta, desabafando… foi quando lhe contei a verdade, mesmo sabendo que me podia odiar por lhe ocultar tanta dor. Ouvi e juntos choramos, em vez de uma birra me beijou na testa e procuramos por uma terra par viver. Mas a minha missão terminara, a minha Rainha veio buscar-me e um dia não acordei mais… num lugar perdido no mundo a princesinha me deixou com muitas lágrimas e uma placa onde se lia “nasceu criado e tornou-se num bravo cavaleiro”

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