40 dias sem ti

Vivíamos numa casa, onde não importa a cidade e nem a rua, fica no nosso pequeno mundo e isso bastava para nós. Era o nosso pedaço de céu, onde todos os dias nos entregávamos um ao outro e nos amávamos, como se não houvesse vida mais para viver. Gostava de sentir as roupas dela no chão, sempre tiradas com a loucura do desejo e assim deixadas quando ela tinha de sair para o seu mundo real, ficava eu ali sentindo o seu perfume, o amor que ela me deixava. Muitas vezes quase me recusava a ver o meu mundo, era sempre tão triste sem ela. Gostava mais de esperar por ela na nossa casa, apesar dos avisos dela... sempre me queria misturado no meu mundo, não esperar, porque ela voltaria na noite seguinte. Como se eu pudesse caminhar nestas ruas sem ela...
Hoje sai, estou sentado a porta de casa e já andei por ai, de noite, nas ruas desertas, com a minha mão direita quase abandonada a si mesma, levava um bilhete nela, onde se lia: “Volto daqui a 40 dias. Beijos. Lua”. Como poderia passar 40 dias sem ela, se nem consigo passar um? Como entraria naquela casa? Por isso, caminhei nas ruas frias, como um sem abrigo ou pior ainda, um sem vida. Porque ela tinha levado tudo, até o pulsar do meu coração, que nem sentia... talvez tenha caminhado noites, dias, não sei... até a noção do tempo ela tinha levado. Agora ganhava coragem para entrar em casa, tinha de sobreviver 40 dias e não tinha onde ficar, senão ali nas nossas coisas... quando abri a porta o seu perfume me apertou o coração, ao ponto de uma lágrima, das poucas que ainda restavam chorar. Fiquei olhando tudo, sentindo tudo e senti que para viver tinha de apagar, esconder o seu mundo, como quando ela não existia no meu. Não seria fácil, vinha-me à memória a primeira vez que a vi, como amei logo os seus lindos olhos como se fossem os meus, pois percebi que sem eles não voltaria a ver a beleza da vida. Mesmo sem dizer uma palavra, nos amamos. Foi como se eu pela primeira vez tivesse rasgado o meu peito, tirasse o coração e olhasse para ele e ver como era lindo. Ela era o meu coração... Nunca mais nos deixamos e agora terei de passar 40 dias sem os olhos que me fazem ver... terei que lutar das mais cruéis batalhas, a de calar o que me faz viver. Peguei nas fotos dela e à porta de casa fiz uma fogueira com elas, talvez de revolta por ela me ter deixado assim, talvez apenas uma fuga do nada, mas era de certeza um acto de amor. Depois me deixei cair em cima da cama, onde ainda havia muita roupa dela e me abandonei ao cansaço, dormi muito, pouco? Não sei! Sonhei com ela, na verdade foi mais um reviver, um momento em sonho, quando na noite atrás tinha desenhado no ar com as mãos um coração para mim, foi um amo-te silencioso e tão sentido... não queria ter acordado neste meu dia, longe dos seus braços, os que me abraçavam e me davam todo o amor do mundo. Deus não me deu esse prazer e acordei agarrado a um vestido verde que ela tinha usado na noite atras, parecido com o que usava na primeira vez que a vi. A saudade era tanta, o coração só respirava a sua ausência... tinha de me levantar, tinha de me livrar das roupas dela e assim fiz, porque a amava e não suportava sua ausência e nem tudo que me lembrasse dela. Queimei tudo!
Regressei ao quarto, ainda estava cheio dela e resolvi queimar a cama, os móveis e tudo que estava lá! Apesar de isso, aquelas paredes agora nuas, parecia respirar como a pele dela, tinham o seu odor... sai para a sala, no sofá me sentei algum tempo, não sei quanto, o suficiente para me recordar das noites que passávamos ali agarrados, ora a conversar, ora a fazer amor. Tantas vezes a vi sorrir deitada naquele sofá, principalmente quando lhe fazia cócegas... numa das vezes eu tinha comprado um boneco gigante, em forma de urso, onde me tinha escondido dentro. Ela ao vê-lo, foi logo a toca-lo como uma criança, ai saltei para cima dela, quase mato ela de susto! Mas depois, foi vê-la rir de tão feliz que estava... como lhe fiz cócegas... a ela bastava-lhe sorrir para me fazer cócegas no coração e fazer rir cada músculo do meu corpo, cada bocadinho da minha alma. Não dava para ter mais esse sofá, seria doloroso demais! Fiz outra fogueira, que ardeu, como ardia o meu peito por ela. Queimei o resto da mobília da sala! Esta era uma luta dura, pois apesar de tudo que tinha já feito, me sentia cada vez mais derrotado. Ela parecia ganhar a cada momento, eu tentava me livrar das coisas dela e ela me abraçava com o seu açúcar dos momentos vividos. Parecia ter passado tanto tempo desde que a vi... talvez os 40 dias tivessem quase a terminar e isso me trazia algum conforto. Porém, tinha de continuar a lutar, os próximos dias são sempre os piores. Pois quando pensamos que já sofremos muito, vem a dor pior, de haver mais um dia sem ela. Pensar que haverá mais de um dia sem ela... isso, é já tortura! Talvez devesse escrever qualquer coisa, responder ao seu bilhete. Procurei na cozinha um papel, uma caneta e escrevi o meu bilhete de resposta: Apagam-se as estrelas, abaixa-se a lua, fecha-se o céu, o sonho acabou... olhei o bilhete, pensei como lhe enviar ou onde o deixar... em cima da mesa havia um pedaço de bolo que ela fazia e adorava, eu também, e sempre ela o fazia para mim. Devorei o bolo, pois não me lembrava de ter comido e foi como ter comido um pedaço de amor dela... por um bocadinho, fui feliz... eu estava enganado, não adiantava apagar as coisas dela, as suas marcas. Eu era a sua maior marca naquela casa, naquele meu mundo ou em qualquer outro lugar onde ela não estivesse e eu estivesse... eu era ela e a Lua, era eu. Cada segundo que por mim passava, eu passava-o com ela, estivesse ou não ao lado dela.
      Sai para a rua, olhei para o monte de cinza que havia a porta e ajoelhei-me sobre elas, eram as cinzas do meu coração ardido, dos meus dias, segundos lançados ao fogo. Tudo aquilo, teria se tornado numa forma de beleza pura, em amor, se ela tivesse estado comigo. Na borda das cinzas havia um pedaço de foto não ardida, um sorriso dela, que lindo sorriso...peguei nele como se fosse uma frágil e rara flor, o que é belo é assim, frágil e raro. Por isso, não somos eternos, porque somos belos, frágeis e tal como as flores, morremos. Beijei aquele sorriso e foi quando ouvi alguém dizer: “Oi meu sol! O que você está fazendo ai no meio de essa cinza e de onde veio ela?” Lua?... Perguntei eu, quase com a certeza de que não haveria resposta. Já devia estar na fase do delírio...
      -Oi, meu sol! Sim, é a Lua! Voltei para... Não tive outra reacção a não ser gritar, como um bebé que acaba de nascer. Pulei, abracei-a, beijei-a e disse vezes sem fim, amo-te.
      -Você, sempre um exagerado! A tua Lua está aqui... Pará! Mas eu, continuei até cairmos de tanto ropiar e fiquei escutando seu coração. Que bom ter você de volta, já passaram 40 dias...
      -Achas, você está bem? Só passaram três dias, a tua Lua não aguentou mais de saudade e voltei para ti, meu amor.
      -Três dias... mas pareceram tantos... o tempo parece parar longe de quem amamos e correr, quando estamos nos braços um do outro.
      -Tens razão amor!
      Não imagino quanto tempo ficamos ali abraçados, sentindo o nosso coração pulsar a saudade, que sempre arde no peito, mesmo abraçados um ao outro. Quando entramos em casa, a Lua encontrou a casa despida de nós, soltou uma pergunta de espanto: “Ui, cuidou bem da casa!” e fizemos amor no chão que escaldava como os nossos corpos e adormecemos.

Nota: a casa neste conto é o meu coração e a mobília, os momentos que passei com ela e que tentava tirar do meu pensamento para os dias não custarem tanto a passa
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