Nunca tentei encontrar Deus, ele sabe onde estou! Apenas tento compreender o seu olhar sobre mim




Numa das minhas viagens, há uns séculos atrás. Andava eu em busca da minha fé pelos lugares onde Jesus andou. Quando encontrei um monge, ao contrário da imagem que tinha dos monges. Aquele não era nada barrigudo e sim bastante magro e frágil, diria… quase no fim da vida. Com a sua túnica castanha (mais pelo surro do que pela cor) e a seu cajado, onde ele se apoiava para caminhar, procurava a verdade da sua existência. Segundo ele, quase toda a vida serviu Deus num convento e houve momentos para tudo, fome, doenças, guerras e até para questionar a existência de Deus. Cada vez com o fim da sua vida mais próximo, essa dúvida aumentava e se perguntava, se Deus estava realmente num lugar qualquer. Ele tinha muita fé, mas neste momento da vida, isso não lhe bastava. Tinha de haver um sinal e foi numa noite de tempestade que Deus lhe mandou uma esperança num sonho. Pois se Jesus (o seu filho) andou pela terra, se era um ser tão especial… tinha de deixar pegadas por onde andou. E foi assim que deixou o convento e partiu para descobrir às pegadas de Jesus, tinha de estar algumas por ai! Ele era o filho de Deus, a terra que seus pés pisaram deve ter ficado marcada internamente, não era um ser qualquer, era Jesus. Já andava nesta busca há anos e sentia de que preste essas pegadas eram descobertas, ele sentia-o. Que história maravilhosa, pensei… tinha de estar com ele quando essa maravilhosa descoberta fosse feita. Resolvi acompanha-lo, já que andava por ali também em busca da minha fé. Depois de lhe pedir humildemente autorização para o acompanhar e de ver esse pedido aceite, retomamos a nossa viagem em volta do rio Jordão, onde Jesus foi batizado por João. Enquanto caminhávamos, falávamos de Jesus, da Bíblia e de Deus.  A minha ideia de Jesus e de Deus, na altura era muito básica, na verdade nem sabia o que isso significava em mim. Já tinha lido muito sobre isso, apesar de isso ainda não tinha encontrado meu Deus, ainda não tinha sentindo Deus. Na verdade, senti-o no olhar daquele farde, na forma de ele falar de Deus, o amor que punha nas palavras… me senti muito básico como ser humano, fiquei com a sensação de que eu tinha uma deficiência na minha alma. Foi então que ele parou e disse: "Então JESUS VEIO da Galileia AO JORDÃO PARA SER BATIZADO por João... PARA CUMPRIR TODA JUSTIÇA". Mateus 3:13-15 foi aqui que João Baptizou Jesus.  Ele entrou na água e me chamou, vem me baptizar! Frade, eu… vós é que deveis me baptizar a mim! Meu jovem, - disse-me ele com um olhar de uma extrema humildade – se faça a vontade de Deus. Não pude argumentar com aquele olhar e me meti na água, até chegar a ele. Mergulhei as mãos na água, para lhe deitar agua na cabeça. Ele me agarrou às mãos – não é assim meu filho, tens de me mergulhar na água - "assim que Jesus foi baptizado [em grego, 'imerso'], SAIU DA ÁGUA". (Mateus 3:16) concluiu! Foi o que fiz, pus-lhe o braço nas costas e imergiu na água. Quando o levantei, parecia quase sufocado. Pois já estava muito débil e as forças lhe faltava ou melhor, a vida lhe faltava. Ajudei-o a sair da água enquanto ele tossia e tremia, tirei minha camisa e tapei-o com ela. Afastado das águas, assentou-se para descansar. – É a primeira vez que me baptizo nestas águas, como Jesus foi baptizado. Faz parte da minha busca da verdade… tenho de encontrar as pegadas como Deus falou para mim ou então, acho que me enganei a vida toda… - disse ele com a pouca vida que lhe restava. Naquele momento desejei ter essas pegadas para lhe amostrar, para ele poder descansar em paz. Acho que com essa dúvida, ele se recusa a morrer. Se existe esse paraíso de que fala a Bíblia, ele merece lá estar, pensei… Nessa noite procuramos por ali um abrigo, uma malhada esquecida por ali, parecia um abrigo acolhedor. A noite foi tranquila, mas o dia parecia trazer tempestade e eu, antes de ele acordar, sai para arranjar alguma coisa para comer. Consegui alguma fruta e pão duro, em água a ferver e com a fruta fiz uma espécie de sopa para os nossos estômagos vazios. Não nos satisfazia a nossa falta de energia, mas dava para enganar. Eu fingi estar cheio para ele comer mais, mas não se deixava enganar e fui obrigado a dividir pelos dois. – É melhor ir andando vem ai tempestade – disse ele se levantando com a ajuda do seu também já velho cajado. Assim fomos caminhando com o vento a passar por nós. Ele falava da sua infância, confesso que o ouvia pouco, pois me preocupava arranjar um lugar para ele se por caso chovesse, coisa que para ele parecia não importar. Foi então que aconteceu algo, para mim hoje chamo de milagre. Embora na altura não acreditasse neles! Naquele momento levantou-se um vento estranho que nos levou pelo ar e lá no alto vimos que nós caminhávamos dentro de uma enorme pegada. Foi tudo muito rápido e logo estávamos no chão de novo, sem um arranhão. Começou a cair uma enorme tempestade, a chuva fazia muito barulho ao cair com força e com o trovejar. – Viste? – Perguntou ele me agarrando! – Sim! Vi uma grande pegada… - ele sorriu e como se tivesse a dizer-me um segredo, disse: è a pegada de Jesus, eu caminhei anos dentro dela… - depois começou a dançar de alegria à chuva e tive muita dificuldade para o tirar da chuva e leva-lo para umas rochas que formavam um pequeno buraco. Ali ficamos o dia e a noite, pois a chuva não parou, acho que adormecemos de cansaço e quando os primeiros raios de sol me bateram na cara, fui buscar comida. Só consegui umas frutas roubadas, Deus me perdoaria! O frade dormia a sorrir, como aquele homem estava feliz… abanei-o, mas ele não voltou acordar! Estava no paraíso, junto com seu Deus que tanto amara e lhe dedicara a vida. Depois das cerimónias fúnebres, voltei a minha viagem e comigo trouxe Deus. De vez em quando faço uma pequena viagem até lá, parece que ainda vejo no céu o sorriso daquele frade. Continua a ser o meu segredo, a pegada de Jesus.

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