O último anjo

O som da sua respiração, quase ocultava às vozes que atrás de si vinham, corria o mais que podia. Mas pareciam cada vez mais perto de si. Naquela noite escura, o pinhal não era um bom sítio para escapar, muitas vezes caia na caruma seca, ou avançava por entre às silvas que o arranhavam sem o sentir. Não tinha outra alternativa, não podia escolher, só pensava avançar e sair dali e se conseguisse, teria muita sorte! Muitos dos seus companheiros foram apanhados e queimados como monstros nas fogueiras, na verdade, restavam apenas três dos milhões que havia no seu grupo e ele estava preste a ser o próximo. Seu coração assustado batia forte, queria pular do peito e fugir daquela corpo que cada vez andava mais, do que corria. Era o cansaço total a tomar conta de si. Arrastava-se por entre o pinhal, cada vez mais fechado, como se o tentasse agarrar… não ia desistir! Apesar de não ter mais forças e de sentir tão velho e doente. Tentava concentrar a sua mente, mas ela também parecia fugir de si. Sem sentir Deus, sentia-se abandonado naquele mundo onde ele o tinha deixado. Preste a desistir de lutar, foi quando caiu por um declive, rolou como uma roda e ganhou terreno, caiu no que lhe pareceu uma ribeira que o arrastou para longe. Deixou-se levar boiando, tentando recuperar forças. Pensou na sua existência de séculos, nos seus primeiros dias na terra e na esperança que tinha neste projecto de Deus. No princípio era um ser invisível aos humanos, alimentavam-se do amor que os humanos sentiam e eles os protegiam. Os humanos sentiam-nos, mas não os podiam ver. Com o passar dos séculos chamaram-lhes de Anjos da guarda. Tinham poderes de curar, voar e cada um protegia um humano até ele partir e ai, nascia outro para ele cuidar. Sentiam o seu trabalho completo quando eles evoluíam ao ponto de atingirem o céu. No começo era raro perder uma alma, depois começaram a vir as primeiras perdas e por fim, era raro salvarem uma alma. Começaram a sentir-se doentes, pois o amor puro era cada vez mais raro e eles com a fome acabavam por tomar amor poluído por muitas outras coisas, fazendo-os perder os poderes ao ponto de às suas cores, outrora branco vivo eram agora negras, perderam às asas, não conseguiam voar e nem faziam milagres, como às pessoas lhe chamavam. Com o amor cada vez mais poluído, ficavam fracos, visíveis aos olhos dos humanos, eles viram-nos como monstros e os perseguiam para os queimar. Como éramos imortais isso não fazia diferença, apesar de assustador. Mas começou a ver quem não voltasse e cada vez mais desapareciam, até que descobriram a verdadeira razão para isso. Os anjos começavam a morrer também, aquele amor cada vez mais poluído os tinha tornado humanos. Hoje, dos que conhecia só restavam três e só Abel conseguia falar com Deus e ainda voa, ainda era anjo. Aguardavam uma ordem de Deus, apesar só lhes pedir para esperar. Abel tinha partido mais uma vez para falar com ele, talvez traga algum amor puro… Caím e ele, há muito que não sentiam Deus. Ele já nem se conseguia lembrar da sua face, do seu amor. Deus não os podia ter abandonado, Deus sabia o que fazia e acreditava ainda que a terra poderia voltar a ser o paraíso, embora custa-se cada vez mais acreditar nisso… como se acorda-se de um sono profundo, dou por si na água gelada pela noite, nadou a custo até a margem e foi caminhando até ao seu lugar escondido, numas ruínas de um antigo convento. Espero já lá estar Abel, pensou… tinha fome, amor que foi tomar a uma mãe grávida era de má qualidade e teve de fugir quando foi descoberto, ainda trazia algum para Caím. O facto de ter caído a água que o salvou, também o afastou mais do lugar onde se escondia. Sentia-se doente e quanto mais caminhava, mais o seu corpo negro lhe doía, os efeitos dos tombos estavam aparecer e cada vez o magoava mais caminhar, tremia de frio e só pensava chegar ao seu cantinho, ter uma esperança na noite. Demorou uma hora a chegar, nos últimos metros quase se arrastava e foi amparado pelos braços de Caim ao entrar no convento em ruínas. Quase não podia responder às imensas perguntas de preocupação de Caím, deixou-se cair na sua manta e contou tudo muito devagar, enquanto Caím batia com os punhos na parede e se perguntava - Onde está Abel que partiu há uma semana? – Porque Deus só fala com Abel? Já não sentia Deus e isso fazia com que se sentisse abandonado e Gabriel sentia que Caím estava no seu limite, estava a perder a cabeça e isso não era bom para o grupo. Precisavam se meter unidos se queriam sobreviver até Deus mandar uma ordem, Deus iria agir e o amor venceria, tudo voltaria a ser como antes. Que Abel traga boas noticias, pensou um pouco e tirou do seu peito o pouco de amor que tinha guardado para Caím e estendeu a mão em sua direcção. O amor costuma ter a luz branca, bem forte e viva. Mas este, a sua luz parecia uma chama preste apagar-se. Caím aproximou-se, agarrou não mão de Gabriel e fechou-a em punho, levando-o ao peito do colega. Recusou o amor, pois Gabriel precisava mais. – Descansa meu amigo! Ficarei de guarda, esperando por Abel – Disse, tampando Gabriel com a manta, que logo adormeceu. Afastou-se e ficou olhando o céu estrelado de uma janela, aberta pelo tempo que lhe tinha levado os vidros e tudo mais. Sentia raiva por não poder fazer nada! Não era justo, tinham sido enviados para proteger os ser humanos e agora eram vistos como monstro por eles, perseguidos e queimados. Deus fechava os olhos, não dizia nada! Que significado tinha isso? Ele tudo podia, bastava olhar… mas parecia de costas voltada! Só Abel o sentia e falava com ele, ainda voava, ainda era anjo e ele, também o era ou foi… Deus não estava a ser justo e chorou, pois já não o sentia. A noite que estava quase no fim, mesmo assim pareceu-lhe longa e quando o dia chegou, escondeu-se na sua manta sem conseguir descansar. Esperava sempre sentir os passos de Abel e a noite chegou sem novidades. Levantou-se para ir buscar alimento, era a vez dele! Antes, chegou ao pé de Gabriel e tentou acorda-lo até se dar conta que estava morto. Abraçou-se a ele e chorou amargamente, quando já não conseguiu fazer mais nada. Levou-o ao colo lá para fora e cavou um buraco na terra onde o deixou. Gostava de o queimar, vê-lo subir ao céu. Mas não podia dar um sinal aos humanos, tinha de mandar um anjo para debaixo da terra, que triste fim… Depois veio a revolta, rasgou parte da sua carne e gritou como um monstro, não aguentava mais! Queria falar com Deus, queria olhar nele e sentir se ainda era seu pai. Abel tinha de o levar ao sítio onde falava com Deus, nem que fosse à força! Foi à procura de Abel como uma tempestade no seu ponto mais alto, a sua fúria era enorme e já nada o podia parar! Abel costumava vir por este caminho e era por este caminho que ele iria. Andou durante algum tempo, sempre olhando em frente. Nem que tivesse de procurar pelo mundo inteiro, encontraria Abel! Não precisou, ele vinha para cá muito lentamente! Quando ficaram juntos e se olharam nos olhos Abel percebeu o que acontecera e caiu de joelhos sobre a terra e chorou, arranhou a terra dura do caminho há muito abandonado. - Leva-me até ao lugar onde falas com Deus! – Ordenou Caím. Como Abel não parecia ouvir, agarrou e ameaçou-o com a mesma ordem. – Não te posso levar lá… - disse sem parar de chorar. Caím atirou-o ao chão com desprezo. – Escuta-me… - Abel não teve tempo de acabar, pois levou com uma grande perda na cabeça e gritou de dor. – Leva-me até ele! – Gritou Caím, cada vez mais fora de si. – Não posso… eu… - Caím não o deixou acabar, aquelas palavras “não posso” irritavam-no, sempre as ouvira dele e dou-lhe mais uma pancada. Abel gritou um – Eu não falo com ele! – Bem cheio de dor. Caím levantou os braços para lhe dar mais uma pancada, mas parou quando o seu cérebro processou aquelas palavras. – Não falas com ele… como, se ele só te ouve a ti, se ainda voas? Ele sempre te amou mais do que a nós… - Abel estava com dificuldades em manter uma conversa, estava a sentir a morte arrasta-lo e foi com dificuldade que revelou o seu segredo. Ele deixara de voar quando os outros e deixara de sentir Deus quando os outros, mentiu para lhes dar esperança, para pensarem que Deus ainda tinha um projecto para eles. A sua viagem era só para lhes dar esperança e aproveitava para arranjar alimento. Dito isto, estendeu o amor pouco brilhante a Caím… mas logo o deixou cair no chão e tombou a vida dele também. Caim ficou em silêncio olhando Abel quase a noite toda. Já não tinha mais lágrimas para chorar e nem mais dor, estava só e tinha acabado de matar o último coração que o amava por um Deus que não os amava, os tinha abandonado… a culpa não era sua, era tudo culpa de Deus. – Onde estás? – Gritava ele! Gritou até se cansar, mais uma vez Deus nada disse. Caím voltou ao convento com o Abel nos braços, o dia estava a nascer e foi-se esconder debaixo das mantas. Passou o dia todo a pensar no seu destino e assim que a noite caiu, cavou mais uma cova para Abel e resolveu correr o mundo à procurar de outros companheiros, talvez fosse o ultimo ou talvez não… Abandonou o convento e partiu sem direcção, sem Deus. Andou algumas noites sem nunca ter encontrado ninguém da sua espécie. Ficava sempre afastado dos humanos, Abel tinha lhe deixado algum amor e enganava a fome com ele, apesar de ficar cada vez mais fraco. Numa dessas noites de viagem, um grande estrondo ecoou nos céus, às estrelas pareciam cair. Caím olhou para o céu e gritou, é o sinal de Deus! Logo outro estrondo varreu o céu e depois viu o céu se abrir, como se cai-se um pedaço uma bola de fogo caiu uns metros à frente de Caím que fez tremer a terra abaixo dos seus pés e levantou pó. – É a chegada dele – Gritou Caím e começou a correr em sua direcção, finalmente a salvação para humanidade tinha começado e já nem se lembrava da sua revolta, pois agora sentia Deus e sabia que o amava, tanto como ele desejava… a morte dos seus companheiros não tinha sido em vão e de certeza que Deus os tinha lá guardado num lugar bonito. Chegou cansado ao local de tanto correr, havia muita poeira no ar, uma espécie de nevoeiro. Mas sentia o perfume de Deus, como aquele perfume lhe trouxe memórias de amor… estava emocionado e caminhava devagar, como se esperasse a poeira assentar. Chamou por Deus, como ele gostava, com o coração. Nada de palavras, apenas o sentir… foi quando seus olhos viram algo e começou a chorar, avançando mais rapidamente e gritou de dor, rasgou sua carne sem piedade. Pois Deus estava caído no chão, seu corpo estava seco, tinha morrido de fome, de falta de amor. - O amor acabou - dizia ele chorando, abraçou-o e junto a ele deixou que a morte o viesse buscar

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