O monstro

A solidão é o muro que separa o humano do monstro, de qual lado estou? Depende do momento...

Por mais que sejamos bons, se todos dizem que nos virem como um monstro, acaba por ser essa a verdade! Acho que foi assim que me fui tornando um monstro, quase sem sentir a diferença entre ou que sou e o que fui… pouco me lembro da aldeia onde passei uma infância quase normal, tirando o meu aspecto um pouco de louco. Toda a gente me aceitava como um deles ou talvez escondessem o seu medo de mim. Tentava sempre ser igual, agradar o mais possível e ser bom, não ter pensamentos impuros. Por mais que algumas mulheres me deixassem com esta minha vontade impura de existir, este meu lado selvagem, de o monstro que se escondia talvez em muitas noites de lua cheia. Eu fui tão bom a ser humano ao ponto de sentir o sentimento mais nobre do ser humano, o amor. Por uma mulher, alguém que parecia ser tirada de um sonho mais belo... mas seus olhos as vezes pareciam fugir dos meus para um espaço vazio, como se escolhesse um caminho para fugirem e foi nessa altura de que comecei a sentir que o amor era a minha lua cheia, o sinal para a metamorfose para o meu estado de monstro. Hoje sei que era o começo, já não era mais aquele animal pequeno que encantava todo mundo… tinha crescido e não dava mais para esconder o meu monstro. As pessoas que até então me olhavam, parece que despertaram, abriram os olhos e me viram como eu era. Começaram se afastar e eu cada vez mais só, como vento uivando por entre as ruas desertas nas noites de tempestade, fugi por esses montes selvagens, me perdi por ai onde só os monstros vão. Foi o completar da minha metamorfose, não sei quanto meses demorou essa fase entre deixar a minha pele de humano, revelado a pele de pedra que fere o olhar. Comecei a temer a raça humana, a fugir das pessoas e a plantar arvores para não me encontrarem, todos os dias não fazia mais nada a não ser comer o que podia e plantar arvores, ano após ano. A floresta crescera, ela própria como um monstro que me protegia e me abandonava na solidão. Nunca mais ninguém chegou e mesmo assim, ainda hoje planto uma árvore por dia nesta floresta da solidão. Tornou-se tão grande e tão silenciosa que os meus pensamentos impuros fazem eco nela, nem os meus gritos de monstro se ouvem. Na verdade aqueles que temem os monstros, não têm razão para isso, não há assim tantos monstros, pois nunca encontrei nenhum por aqui… a não ser a minha imagem reflectida nos riachos deste silêncio e os meus pensamentos perversos. Mas nunca fui um bom monstro, nunca consegui passar aos actos, limito-me a pensar, a contar as estrelas e a lembra-me daquele doce olhar de onde brotou o amor para o meu peito. Um monstro não devia pensar no amor, imagino… Numa noite consegui ver uma rosa, no meio da minha floresta, acho que caiu das mãos de algum ser belo que voava no céu… fez-me sentir aquele olhar, aquele perfume que ela usava, doce como eu ainda a conseguia recordar. Agarrei nela e plantei-a bem pertinho do lugar onde adormeço, é o meu segredo de monstro ou talvez o que me deixaram de quando me sentia humano. Os anos passaram depressa, na minha mente, criei as minhas personagens tão parecidas como eu, embora sempre mais belas, com elas que vivo e ando pela noite rasgando a escuridão com as minhas garras há muito gastas pelo nada. Temos que nos esconder do sol, viver no negro onde se vêem poucas cores, mas os odores são muito intensos, como os pensamentos. Aprendi a falar com o silêncio, fazer coisas com nada! Porque já não saio da minha floresta, e nela só existo eu! Às vezes ainda sinto esse desejo de voltar atrás, como se isso fosse possível… talvez a minha metamorfose tinha ficado incompleta, tenha ficado nem humano, nem monstro. Talvez seja por isso que não encontre ninguém, porque não pertenço a nada… estou num mundo só meu, numa espécie de limbo pressionado com as correntes invisíveis de um Deus, se é que os monstros ou esquecidos como eu, têm Deus ou serei eu um Deus desta floresta onde tudo que nela habita, foi criado por mim? Se parar de pensar, sei que tudo isto se perde, se ninguém pensar em mim, não existo. Talvez por isso eu pense, para não ser esquecido pela vida. Já me custa a caminhar neste mundo selvagem e ao mesmo tempo intocável… é a solidão dos sentidos, tudo é pensamento como se não houvesse mais nada para tocar… deitei-me ao lado da rosa há muito murcha, talvez ela também imaginada, mas com o mesmo valor para mim e fiquei imaginando como será doce tocar na pele daquele mulher que amei, olha-la sem medo de ela fugir… era um pensamento quase puro se não houvesse o desejo, o meu lado de monstro. Há segredos que nunca vou revelar, que são impossíveis de tocar para um monstro. Na minha vida, nunca mais sonhei assim um sonho ao ponto de fazer parte do meu respirar, nunca mais caiu uma rosa do céu… Sinto-me rasgado pelo tempo, ferido como se fosse atacado por humanos em fúria, estou velho! Deixo-me cair, bem no lugar onde durmo durante os dias, na verdade já pouco sai-o daqui… cheiro o fraco perfume da rosa murcha e me deixo levar pelo sono.

O despertar é sempre igual, a noite me acorda com o seu odor fresco e depois planto mais uma árvore. Já nenhum humano deve cá chegar, mas nada mais há para fazer! Eram assim os meus dias, esconder o meu ser da vida lá fora. Hoje ao me mexer senti-me mais leve, diferente! Senti-me flutuar no ar, como num sonho. A tocar nas nuvens, tentei acordar! Mas continuava no ar e me senti feliz. Talvez não fosse um monstro e assim uma espécie de borboleta, talvez a minha metamorfose tivesse completa agora… tentei voar e consegui! Meu coração parece ter despertado de um pesadelo, sorri e voei por cima de tudo, da minha floresta, da minha aldeia, dos montes para lá dela… voei, voei até me fartar! Fui a todos os lugares que nunca me quiseram e vi muitas flores, rosas, por onde passei rasteiro para sentir seu perfume. Era tão fresco, tão vivo este odor da vida! Agora era livre, nada mais poderia me agarrar! Pensei voar pelo mundo todo contando as coisas mais belas. Sim, era isso que eu queria! Mas lembrei da minha rosa que tantas vezes me amou lá na minha floresta, não podia ir sem ela, sem essa parte bela do meu estado de monstro. Voei até lá e fiquei chocado! Um monstro estava na minha floresta, ao pé da minha flor. Como poderia algum monstro me tentar levar isso. Me aproximei e vi a verdade, eu ali deitado e morto… por momentos cai no chão. Afinal, não havia a fase borboleta, só a morte… tentei acordar-me, agarrar a flor, mas era já tudo uma ilusão. Fiquei sem saber o que fazer, a espera de uma luz no céu ou de um buraco no chão para me levar. Nada aconteceu! Por momentos pensei que primeiro tinha de me despedir de quem amava, mas quem? A não ser aquela mulher que nunca mais vi… voei até a aldeia, procurei-a de casa em casa e nada me parecia a ela, não senti aquele perfume… procurei noutras terras e nada! Voltei a aldeia e lá no campo estava ela, nunca poderia esquecer aquele olhar, aquele andar, aquele sorriso, aquele perfume… aproximei-me, devagar para não a sustar! Só que ela não me via, aí, me encostei bem a ela e beijei-a nos lábios… meu ser flutuante se desfez em milhões de partículas que ela respirou

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