O menino a preto e branco

Madalena era uma menina crescida, apesar dos seus 5 aninhos, já chegava as coisas altas e já tinha namorado. Eram argumentos fortes para convencer a mãe, que teimava em trata-la como bebé. Só pode ser coisas de mãe, pensava ela e fazia birras por tudo e por nada!
Hoje estava caladinha, enquanto a mãe a tentava vestir à pressa, iria sair com a ela fazer compras de natal e esperava conseguir o que queria, para além de ver as ruas todas cheias de luzes, de mil cores. Como é lindo o natal, pensava para si. Na verdade nem compreendia porque não era sempre natal, se é tão bonito… coisas de adultos! Antes de a mãe a puxar para fora de casa, agarrou na grande lista de presentes para entregar ao pai natal e meteu-a no bolso do casaco encarnado. A mãe dá um último retoque ao gorro, também ele de um encarnado vivo e lá foram de mãos dadas. As ruas estavam todas cheias de luzes, havia muitos anjinhos, árvores de natal, sinos, enfim, um mundo de cor! Apetecia-lhe deixar a mão segura da mãe e correr, dançar como uma princesa, mas a mão que a agarrava parecia adivinhar as suas intenções e apertava mais, restava-lhe olhar em volta e ver as luzes e as pessoas felizes, todas coloridas, pareciam também elas luzes de natal… riu-se, como se tivesse pensado uma parvoíce. Coisa que ela tentava não fazer, pois não queria dar ao pai natal motivos para não lhe trazer todos os presentes da sua lista.
Tinha pensado muito nela, pediu ao pai para lhe fazer uma lista e assim não se esquecia de nada! Hoje entregaria a sua lista ao pai natal onde a mãe costumava fazer compras. Foi com este pensamento doce que apanhou um pequeno susto, é que no meio daquelas luzes e pessoas coloridas, viu a cara escondida de um menino a preto e branco. Nunca tinha visto algo assim, assustou-se e pensou, é muito feio andar por ali todo sujo, sem cor, a estragar o natal… menino mau! Ninguém olhava para ele, era bem-feito! Deve ser um menino como muitos adultos que não gostam do natal, como naquele conto que a mãe lhe tinha contado, de um velho que não gostava do natal... Mas seguiu com os olhos até o menino ser engolido por toda aquela cor.
     Quando chegou a casa já cansada de tanto falar com o pai natal, fez questão de repetir a sua lista cinco vez, para ele não se esquecer. Ainda pensava no menino sujo, falou dele á mãe, que nem lhe ligou de tanto trabalho que tinha. Foi para o quarto a brincar com as bonecas e só voltou a pensar nele quando foi dormir, teve medo e chamou a mãe para dormir com ela. No dia seguinte acordou ainda mais feliz, pois era dia 24 e nessa noite passava o pai natal, desta vez iria estar acordada para o ver. Na outra vez tinha adormecido, desta vez era crescida e não iria adormecer! O dia foi passado a perguntar á mãe se ainda faltava muito para a noite chegar, tanto que a mãe ao meio da tarde estava farta e resolveu leva-la a passear, pois não se calava! Voltou a vestir o seu casaco vermelho e o gorro, que ela adorava, pois era quentinho e estava na moda! O casaco já era diferente, tinha sido feito pela sua avó e apesar de gostar dele, sentia que era para bebes e ela já era crescida! Mas ficava caladinha, pois além de gostar muito da avó, o pai natal não ia gostar de saber disso, era só um segredo dela. A mãe tinha ficado parada na conversa, era sempre assim e ela ali a perder o seu tempo, as coisas bonitas que podia ver senão fosse essa mania da mãe! Foi ai que voltou a ver o menino a preto e branco, encolheu-se como se apanhasse um susto, recuou para trás da mãe e ficou á espreita... lembrava-se da história que a mãe lhe tinha contado... o velhinho, depois de visitado pelos três fantasmas, ficou bondoso e a gostar do natal...Como a mãe conversava, apanhou-a distraída, ganhou coragem e aproximou-se do menino muito devagarinho. Ele sorriu, mas com medo e ela sem dizer uma palavra, foi-se aproximando devagarinho, como se fosse apanhar o gato gordo da vizinha e quando chegou junto a ele, tirou o seu gorro encarnado muito vivo e pôs na cabeça do menino, que tinha ficado a preto e branco com um gorro encarnado. Ela riu-se, tinha piada! O menino também, riu-se baixinho, pondo o dedo nos lábios fazendo o gesto de silêncio! Logo se começou a ouvir-se comentários, um menino pobre, coitadinho! Todos se aproximaram, a mãe agarrou a Madalena pelo braço e puxou-a para si. O menino a preto e branco assustado tentou fugir, não podia, estava rodeado de pessoas. Sentia-se olhado de alto a baixo, como se fosse algo estranho. Depois as pessoas começaram a toca-lhe no cabelo, a despir as suas roupas sujas e depois, cada uma tirou uma peça de roupa e vestiram o miúdo ate ficar todo colorido, como os seus filhos. Sentiram-se felizes, aliviadas com as suas consciências, era natal e tinha feito algo de belo. Assim como apareceram, as pessoas começaram a desaparecer! Madalena era puxada pela mãe, enquanto ela tentava olhar para trás acenando. O menino a preto e branco, agora colorido acenava também! Logo ficou só ou melhor, a multidão passava por ele como se não tivesse ninguém. Assim que Madalena sumiu por entre as ruas, pulou de alegria! Sentia-se bonito e foi pulando para casa, que ficava num bairro a preto e branco, onde havia muitos meninos a preto e branco. Desceu a rua com orgulho, enquanto os outros meninos o olhavam fascinados. Nunca tinham visto um menino colorido. Todas as crianças o seguiam e antes de chegar a casa, o menino colorido que também fora a preto e branco, chegou ao pé de um menino tão preto e branco como ele fora e tirou o gorro encarnado vivo, pôs-lho na cabeça, ele sorriu… pulou também! Depois tirou o casaco e dou a outro menino, mais uma camisa para outro menino, as calças para outro, os sapatos dou-os ao seu amigo. Todos pularam de alegria por serem donos de um bocadinho de cor! O menino que trouxe essa cor toda, ficou de novo a preto e branco, ria-se ao ver os outros a pularem de alegria. É o natal mais bonito que teve, pensou…e foi ter com a sua família a preto e branco.

Madalena no seu quarto, sem imaginar que o seu gorro fez natal em corações de meninos a preto e branco, mais uma vez adormeceu sem ver o pai natal.

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