Memórias do Douro e do meu Avô


parte 1

O primeiro contacto com o Douro foi em criança, quando o Douro era também uma criança. Os meus avós eram feitores numa quinta, bem a beira do rio e eu ficava lá com eles, cedo me tornei um amigo do rio. Naquela altura, era um rio diferente do que é hoje, na verdade ambos crescemos e nos tornamos adultos. Apesar de viver agora mais afastado do rio, tenho memórias maravilhosas do Douro, quer visuais, tácteis ou olfactivas. O rio que me viu crescer, era forte e de águas claras. Não quer dizer que fosse menos poluído, mas era mais cristalino e selvagem! Pelo menos é a imagem que guardo dele nas minhas memórias de infância. Lembro-me das manhãs de nevoeiro em tons de fantasia, dos dias de sol cantados pelas aves e dos momentos com mais impacto, como as cheias que assustavam a minha avó sempre comentadas daquelas grandes cheias em que o rio tinha chegado ao telhado das casas. Eu ficava fascinado e lá no fundo, queria que o rio chegasse mais perto. Se a minha avó soubesse... Depois vinham as vindimas, os odores eram mais fortes, que nos deixavam embriagados os sentidos. Ainda hoje o cheiro do vinho me trás uma espécie de prazer e saudade, apesar de não gostar desse néctar dos deuses... Recordo os dias que passei com o meu avô no alambique, sempre com um copo de leite e pão com manteiga que a minha, já falecida tia me ia levar ao meio da manhã. Dos lugares onde as minhas tias costumavam lavar a roupa com muita relva e fragas e lá no meio do rio, se via uma pequena ilha onde eu imaginava haver um tesouro. Hoje o rio tomou esse lugar para si, como algo demasiado belo para se ver de novo. O Douro também deixa magoas...  Depois havia a outra margem, onde passava o comboio que vinha lá de longe, onde existia o mar, mas nunca me falou dele... Recordo sobre tudo as pessoas que apesar do trabalho duro ainda brincavam comigo e das noites a contar histórias de medo, muitas vezes sem coragem de olhar para trás onde estava o escuro. Lembro-me da minha tia que ao dormir tantas vezes me ensinava a rezar e nunca aprendi... me perdoa tia! Acho que nunca acreditei nesse Deus mesmo acreditando em tudo que me dizias e agora que já sabes a verdade, espero que a tua fé te tenha compensado! Nos Domingos íamos à Barca D´Alva a beber um café e mais uma vez um homem chamado António me levava as costas e não era perto só por não ficar com as mulheres. Também já lá estás e nunca te pude agradecer tudo de bom que tu tinhas nesse coração... Naquele tempo a gente acho que era feito de outro amor! Lembro-me nessas idas à Barca D´Alva eu querer beber também café que era tão forte, que apesar de todos me darem o seu açúcar não ficava doce, eles sorriam... Acabava sempre o dia, os rapazes com um copo a mais e se vinha pela estrada de terra batida a cantar. Na quinta também se vendia areia e um homem chamado Joaquim trabalhava com a máquina, muitas vezes me levou com ele e eu todo orgulhoso, como um menino num carro de bombeiros, outra vez eram os camionistas que me levavam. Nesse tempo eu não sabia nada da vida. Hoje tudo mudou, menos as nossas raízes que o Douro misturou para sempre. As horas que passavam a olhar o rio, a cheira-lo, a escutar os seus movimentos por entre as rochas. O rio cresceu e eu também, seguimos caminhos diferentes. As vezes, pergunto-me se o rio terá saudade? Quando chove e a terra fica molhada, sinto o odor do Douro, acho que é ele que me vem visitar...

parte 2

Não sei se o Douro ainda se lembra de mim... Vivi muitos anos ao lado dele, dormia ouvindo os seus passos quase silenciosos e acordava com a frescura das plantas que ele amava e lembro-me muito de passar horas olhar para ele. Nunca parava, tinha sempre aquela pressa de chegar ao mar... Só mais tarde compreendi essa pressa, quando eu próprio vi o mar! É curioso, usar o Douro para fazer uma homenagem ao meu avô materno. Lembro-me dele, naquele pedacinho de terra junto ao Douro, para mim naquela altura não havia mundo, apenas o Douro e meu avô. A própria aldeia hoje onde vivo era já longe para mim, meus pais ficavam na aldeia ou seja, longe... Meu avô era um homem como o Douro, não parava e eu olhava-o trabalhar. Apesar de toda essa pressa dos dias ele sempre tinha tempo para responder às minhas perguntas dos porquês e nunca se recusava a responder a uma. Ensinou-me a jogar às cartas, a não crescer depressa pois ele sabia que a vida era dura, quanto mais tempo criança melhor! Ensinou-me amar a terra dura onde se arranca vida, olhar olhos nos olhos sem medo porque só assim as coisas ditas podem tocar a alma. Para ele que acreditava em Deus, a alma tinha muito significado e cuidava dos outros como cuidava dele, nunca vi ninguém lhe pedir ajuda sem ir com um sim. Na altura eu não conhecia muitos heróis, só ele e assim continuo a pensar… não precisava de superes poderes para ajudar, usava apenas amizade e a justiça, que sem ser cega era justa. Lembro-me de o ver a fumar olhando o Douro, muitas vezes parecia longe dali… acho que conhecia mais mundos do que eu. Tudo mudou avô! Hoje eu conheço o mundo todo e tornou-se tão pequeno ao ponto ver que está no outro lado do mundo e até posso ver aquele pedacinho de terra junto ao Douro do céu, tal como esse teu Deus verá e acredito que agora tu também o vês, lá nesse teu céu prometido… ou talvez ainda andes por ali, fumando o teu cigarro olhando o Douro, cigarro que tu próprio fazias com as tuas mãos duras do trabalho, mas sempre doces ao tocar. Ainda me viste como homem e eu que cresci fascinado como ser humano bondoso que era… isso nunca mudou! Sempre jogamos às cartas como se me quisesse agarrar num tempo que já pouco lhe restava. As vezes, eu tentava perder para ganhares, porque a vezes a sorte te fugia, Mas tu nunca deixaste e ralhavas comigo, mais uma vez a justiça… Tenho saudades de lhe dizer o que nunca lhe disse:" AMO-TE tanto avô " naquele tempo isso não era de homens, ele sabia o quanto gostávamos um do outro, talvez não fosse preciso essa palavra, apesar de hoje a ter desejado dizer! De todas às perguntas avô, faltou fazer uma: porque hoje não estas aqui? Não ias querer responder, porque dói a resposta e pergunta...

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