Abismo

Ela parecia dançar a beira daquele abismo, com os cabelos acariciados pelo vento e uma cerveja na mão, fazia balançar o corpo para o vazio. Gritava: diz que me amas! Sem nunca tirar os olhos do céu, como se tivesse preste a voar… Sim! – Gritava eu, amo-te acima de qualquer coisa! Ela sorria, abrindo os braços para o céu. Não se preocupava onde punha os pés, sempre parecia ir saltar…
 - Então vem voar comigo… és capaz de me dar a tua vida? - Dizia olhando para mim com aquele olhar misteriosamente belo e um sorriso embriagado. Aproximei-me devagar, como se ela pudesse assustar-se e voar.
 – Sim, sou capaz de dar a minha vida por ti, tu és a minha vida – as minhas palavras foram pronunciadas com o som do trovejar de fundo, a banda sonora perfeita para aquele momento. O perfume a terra molhada era intenso, vinha ai a tempestade. Abriu os braços para mim e disse: Vem abraçar-me… corri como se ela fosse saltar para o abismo e abracei-a forte, balançamos entre a terra e o ar. Por cima do ombro dela, pude ver o mar violento bater na rocha, bem lá ao fundo. O cheiro a cerveja misturou-se com a minha roupa.
- És o meu louco! Nunca duvido do que és capaz por mim… - disse como se tivesse a desabafar, roçou sua testa na minha e dos seus lindos olhos caiam lágrimas. Dançamos um pouco sobre o abismo ao som da chuva que começava a cair. Depois afastou-se de mim! Bebeu a última cerveja que havia na garrafa e partiu-a contra a uma fraga. Porra! Gritou com toda a sua raiva. Caminhava de um lado para o outro, até se ajoelhou na terra molhada. Não entendo a porra deste mundo! Disse ela completamente encharcada pela chuva. Não entendo o meu coração… és a minha alma gémea, fazes tudo por mim, até a vida davas por mim… sinto o quanto isso é verdade! Mas… amo um gajo que hoje se casou com outra, amo-o como tu me amas, até a vida dava por ele…
Nesse momento parece que tudo se calou, até a chuva parecia suspensa. Só o som do seu choro atravessava meu coração. Aproximei-me suavemente, ajoelhei-me e toquei-lhe no rosto. – Não faz mal, ninguém manda no seu coração… - abracei-a com força. Ela beijou-me, rasgou-me a roupa e cravou suas unhas na minha carne, deixando-se cair no chão. Arranquei-lhe a roupa, beijei-a cada bocadinho da sua pele suja pela lama. Suas botas se enterravam na terra de prazer. Sentia minha pele arder, a ser rasgada por suas unhas. Me mordia o corpo enquanto os nossos sexos se misturavam em movimentos loucos e no último grito, agarrei-lhe as mãos deixando-me cair sobre ela e assim ficamos, sentindo o nosso respirar acelerado. A chuva se nos tocasse ferveria no calor da nossa pele e assim ficamos a noite toda. Ao nascer do sol, ela me tirou de cima e se assentou no abismo sem se preocupar com a roupa, para ver o sol nascer.  Eu aproximei-me e ela olhou-me, sorriu e disse com a maior doçura de uma mulher: Está na hora de me tornar num anjo… Depois fez silêncio e levantou-se, olhou-me e confessou: Fazer amor contigo, foi o mais belo que já fiz nesta vida… acredita! Virou-se para o abismo, mas eu corri, abracei-a e de costas para o abismo. Pedi-lhe para se casar comigo.
– Tonto! Eu vou partir para sempre – Disse sorrindo
 - Bastas dizer que sim para ser verdade… -
 - Sim! Se é essa verdade com que queres ficar… sim! –
- Então o noivo pode beijar a noiva…- ela sorriu de novo e disse: Claro, o noivo pode sempre beijar a noiva! Meus lábios colaram-se nos dela e abraçados, deixamo-nos cair no abismo. Os corpos bateram nas rochas e se separaram já sem vida.
Epílogo
A polícia judiciaria depois fazer uma investigação e de terem recebido os resultados da autópsia aos cadáveres concluiu que foi um crime passional. Pessoas da aldeia viram a jovem a beber num bar saindo dele completamente embriagado com o jovem que cometeu o crime. Segundo a investigação a jovem sofria de amor por um outro jovem que se casou nesse dia. Também concluiu que o criminoso tinha uma paixão por ela, levando-a para o miradouro, um lugar isolado. Onde cometeu uma violação e a empurrou para o abismo. A autópsia aos cadáveres concluiu que havia sinais de luta, como marcas no corpo do homem feitas pelas mulheres, demonstrando que ela tentou se defender, assim como sémen na vagina da mulher confirmando que a violação foi consumada. Talvez com o medo de ela o denunciar empurrou-a para o abismo, logo depois se suicidando por saber que era difícil não ser descoberto.

Num canal de televisão uma vizinha do jovem dizia estar chocada, pois ele parecia um bom rapaz. Mas outra dizia:  a mim nunca me enganou, bastava olhar nos olhos dele para sentir medo.

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