Sempre que uma amiga me dizia que se ia casar. Eu dizia-lhe, que seria das noivas mais belas, só não seria a mais bela, porque essa seria a minha. Hoje casa-se a noiva mais bela com um amigo meu. Desço as escadas da igreja com mais dor do que as subi e em cada movimento que me leve para longe dela, é uma faca que despedaça o coração em mil pedaços. O meu andar é desnorteado, como se caminhasse perdido num deserto quase sem vida. Uma subtil brisa parece querer limpar as lágrimas, que os meus olhos deixam cair como pegadas que ela pudesse seguir. Caminho até não poder mais, apoio -me a um poste de iluminação e senti o telemóvel tocar, procurei-o no bolso e deitei-o no lixo. Olhei para o céu como se ele pudesse agarrar -me e levar para longe dali… mas não, nada se interessava! Nem tão pouco chovia! Estava um dia ideal para se casar, a escuridão era só minha… suspirei e abandonei o meu apoio, continuei andar, desta vez, ainda mais lentamente. Sou um tipo banal, as mulheres não se apaixonam facilmente por mim. Só a força das palavras e muita alma, é que elas me deixavam beber dos seus lábios um pouco o néctar do amor. O amor para mim sempre foi uma ausência sentida, todos os meus amores tiveram um final óbvio. Nunca gostei de histórias de amor com um final óbvio, daquelas em que chegamos ao meio e já se sabe o fim… viveram felizes para sempre! É um dos fins que se lê muito nos romances de amor, por isso não os leio. Não é essa felicidade mórbida que queria para mim, a dor faz parte de um amor muito sentido. Tenho nos meus amores um fim próprio, também óbvio, como este amor, todas as minhas paixões, acabaram por se casarem com outros. Provavelmente, todos os amores têm um fim óbvio. Eu não gosto, talvez por ficar sempre do lado dos que sofrem.
Não sei quanto tempo me perdi, ou os dias que passaram! Dei por mim no lugar onde a conheci, como se pudesse reiniciar tudo. Deixei-me cair sobre a areia da praia e uma onda veio chegar-se até me molhar, como no dia em que a vi a fazer amor com o mar, (era assim que ela lhe chamava, quando banhava o seu corpo nu no mar). Com o luar, pareceu-me uma sereia. Foi a primeira vez que a vi, que senti o que é ter um coração… o mar parecia enamorado dela e a lua também, ambos a enchiam de amor. Fiquei como estátua a olhar para ela durante muito tempo. Os meus olhos seguiam cada movimento, a acariciavam-na á distância. Quando saiu das ondas que a tentavam puxar, como se pudessem sentir o calor da pele dela. Não tentou resguardar a nudez, parecia estar à minha espera. Disse-me: «agora que descobriste o meu segredo, nunca vais deixar-me» e foi-se embora. Lembro-me que só depois me senti envergonhado do meu acto e da felicidade que senti, meu coração pulava.
Nas noites seguintes dormi na praia, só a voltei a ver dias depois, a fazer amor com o mar. Chamou-me para banhar o meu corpo nos braços do mar, corri para as ondas. Mandou-me parar e tirar a roupa. Despi a roupa com urgência e alcancei-a lutando contra as ondas, ao chegar, pegou-me na mão e dançamos, a mais bela música que alguma vez senti no coração, ela cantava em silêncio com a beleza do seu rosto e o toque cálido da sua pele. Embalados pelas ondas, deixamos o mar nos confundir com um barco e navegamos, com as velas do coração sopradas pelo amor. Os seus lábios revelaram-me ao ouvido: «a lua está a espreitar-nos». Olhei para a lua, caiava a escuridão e o mar, com um luar bastante penetrante, poucas estrelas se viam, a via-láctea parecia discreta. «É ciúmes!» disse eu, encostando o meu rosto ao dela. «Ciúmes da magia dos teus lindos olhos». Ela mergulhou e deixou-me por momentos sozinho, o meu coração palpitava forte como se esperasse apanhar um susto. Aproximou-se por baixo de água e reapareceu bem pertinho de mim e disse: «é uma tonta! Ela não sabe que a magia dos meus olhos não é forte, só chega aos corações daqueles que acreditam neles». Olhei-a já com uma paixão imensa e como se lhe dissesse um segredo: «não é tonta! Ela sabe que acredito mais nos teus olhos do que em mim». Depois, como se pudesse a pegar na lua e pô-la no dedo dela, imitei o gesto de lhe pôr a lua como aliança: «dou-te a lua como aliança, aprova do meu amor por ti». Foi com esse gesto de mímica e aquelas palavras tão simples como o amor, que lhe disse que gostava dela. Ficou em silêncio, agarrou-se ao meu corpo e dançamos. Senti o perfume quente da sua pele salgada pelo mar a fazer cócegas no coração e abracei-a como se apertasse todo o amor do mundo. Passamos muito tempo assim e antes de se ir, apontou para a lua: «nunca a vou tirar…» disse com um olhar apaixonado e foi-se, tentei segui-la, perdia enquanto me vestia á pressa. Cada vez ficava com o coração mais pesado longe dela.
Voltei a esperar mais uns dias para a voltar a ver, sempre na mesma praia e á noite, a fazer amor com o mar. Corri para o mar, não me lembro de ter lutado com as ondas para alcança-la, nem tirei a roupa. Talvez por a saudade apertar-me o coração ao ponto de uma lágrima. Sem dizer uma palavra toquei-lhe ligeiramente no rosto onde a beleza tinha escolhido viver, sorriu ligeiramente, usufruindo ao máximo o meu toque. O mar estava áureo tocado pelos braços de luz que a lua estendia sobre ele. O corpo dela com a luz do luar usava um vestido feito com o mais belo tecido, o da alma. Ela roçava em mim, como fogo na carne. A lua parecia mirar-nos com desejo, ao ponto de focar com a luz dos seus olhos a nossa dança, continuamos a dançar, dançar até que lhe perguntei o nome. Ela meteu-me a mão no bolso das calças e tirou o isqueiro «não direi mais do que isto» e acendeu o isqueiro. Consegui ver os lindos olhos castanhos que ela tinha, os seus lábios tão perfeitos como os meus sonhos. Os cabelos pretos e lisos, cortados pelos ombros, faziam dela eternamente jovem. Os seios eram pequenos e firmes, de uma beleza que me escaldava com as formas do seu corpo e a sua pele tinha tons de canela. Seria capaz de olha-la sem sentir a vida passar. Apertei-a contra o peito para que sentisse meu coração chamar o seu, a minha saudade revolta como o mar contra a rocha batia forte em mim. Ela abraçou-me com mais força: «o teu calor é o perfume que deito todas as noites no meu corpo» deixou as palavras no meu coração. Tentei beija-la, mergulhou como uma sereia e apareceu mais adiante, para se ir embora. Quase como um acto de desespero, perguntei: «quando te volto a ver?». Ela gritou: «desenha todas as noites na areia um coração para mim e eu virei!» e partiu mais uma vez, deixando-me tão só como se fosse a única pessoa no mundo. Tentei mais uma vez segui-la, parecia que vinha do mar e nada conseguiu!
Não a voltei a ver tão depressa, apesar de todas as noites desenhar um coração para ela com um: «eu e tu, amo-te». As semanas foram passando e sentia-me cada vez mais só. Num dia de chuva, um amigo que não via á algum tempo apresentou-me a noiva. Foi aí que a vi ao lado dele, não compreendi, não aceitei! Tentei saber por quê? Ela não falou comigo, fugia… o meu amigo não gostou dos avanços sobre a noiva e atacou-me violentamente com um soco na cara, lutamos durante uns minutos e acabei sozinho na rua. Confesso que chorei como uma criança, não por ter levado pancada, mas por ter acordado de um amor que para mim significava o mais belo que a vida tem. Já nem me lembrava como eu era antes de a conhecer, já não sabia o que era viver sem sentir saudade. Afastei-me! Porém, à noite sempre voltava a praia, desenhava o coração com a esperança de a ver, não a voltei a ver. No dia do casamento, pensei que ela merecia ser feliz, mesmo que fosse com outro e fui á igreja pensando pedir desculpas. Não consegui entrar mais de um passo! Sai e aqui me encontro, na praia…
No céu a nossa aliança preserva a luz que sempre nos acompanhou, as suas mãos de luz tocam nas ondas revoltas. Só nós restamos desse amor. Levantei-me, despi a roupa suavemente, como quem fosse dormir e caminhei para o mar, comecei a lutar contra as ondas que atiravam comigo de volta á praia, até que me arrastaram com violência e me afundaram, como se o mar estivesse a vingar-se por ter ousado amar a mulher que fazia amor com ele. O ar começou a faltar, lutei até ficar cansado. A minha dor começou a ficar leve, o rosto dela sorria. Eu sabia que era o seu último sorriso para mim…o meu pensamento fazia eco na mente: «estaremos sempre juntos». O seu sorriso ficava cada vez mais embaciado e o mar fechou-me dentro de si…

-Como não poderei sentir me culpada… ele foi a minha procura… entrou no mar com o desejo de me encontrar…
-Talvez fosse assim como dizes... Isso não quer dizer que foste culpada do que aconteceu. Amor, as coisas não são assim! Não sábias que ele pudesse fazer o que fez! Para além disso, podia ter sido um acidente!
-Claro que fui culpada! Eu devia ter revelado a verdade, devia ter-lhe dito… não importa se foi acidente ou não! Se ele soubesse a verdade não teria vindo e hoje, estaria aqui ao meu lado.
Deixou-se cair sobre a areia, repetindo várias vezes: «estaria aqui ao meu lado» abaixando a cabeça, como se tentasse esconder as lágrimas, mas não! A dor é que pesava muito e a dobrava sobre o chão, como se Deus a pisasse. A irmã, com as lágrimas também nos olhos, levantou-a enquanto ela chorava amargamente. Abraçou-a o mais forte que pode e choram juntas, juntando o que lhes restava, o amor que sempre as unia desde que nasceram. O céu estava negro, o mar parecia calmo, só o vento dançava fazendo os cabelos delas se misturarem.
Limpou-lhe as lágrimas, dou-lhe um jeito ao cabelo e sorrindo com lágrimas, disse-lhe: «Tens de ser forte, no cemitério não há lugar para as pessoas que amamos, só no coração. É nesse teu lindo coração que ele está, é só teu!». Depois beijou-a várias vezes. Ela reagiu, beijou-a também, abraçaram-se mais uma vez e levantaram-se apoiadas uma na outra. Caminharam até as ondas, olharam o mar e a irmã olhou-a para lhe dar coragem. Ela descalçou os sapatos e com uma caixa de lata na mão, daquelas onde vem bolachas.
Dirigiu-se para as ondas, parou quando a água lhe dava pelo abdómen e com as lágrimas, como um adeus. Tirou da caixa fotos de todos corações que ele desenhou na praia e que carinhosamente fotografou as escondidas, havia também algo escrito num papel. Com a voz trémula pela emoção falou pare ele com certeza de que a ouvia: «fiz umas cópias para mim, vim trazer estas para ti… para que saibas que sempre estive aqui…» depois de uma pausa de lágrimas, respirou fundo e disse a soluçar: «gosto muito de ti…» e lançou as fotos ao ar que o vento levantou alto e espalhou. Voltou para trás, a irmã foi ao seu encontro. Olharam mais uma vez o mar e partiram. Do céu começar a cair gostas de chuva, uma aqui outra ali, como se caíssem dos olhos dele. Para trás ficaram as ondas, as pegadas na areia, um lugar triste. A irmã tentou protege-la do vento com um casaco, quando passavam por entre as dunas. Ela voltou a olhar para trás para ver a praia mais distante e falando quase para si, disse: «não lhe contei que tinha uma irmã gémea para manter a fantasia, como nos contos que escrevo. Por isso te pedi para não lhe dizeres nada e de certa forma, para passares por mim… a noiva eras tu...» sem dizer mais uma palavra voltaram ao caminho tão difícil de percorrer para ela.
Nunca mais fez amor com o mar.

Nas ondas as fotos navegavam e a tinta das palavras escritas no papel, começava a derramar o seu sangue no sal do mar, mas ainda se podia ler: quando um amigo me dizia que se ia casar, dizia-lhe que seria dos noivos mais belos. Só não seria o mais belo porque esse seria o meu… tu eras o noivo mais belo.

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