A árvore

Não me custa acreditar, se realmente existe essa sensação… costumo ser céptico a essas coisas, as emoções costumam ser como uma ilusão óptica, pois parece que sentimos o que depois não as encontramos. Para mim o mundo sempre fui assim, um deserto onde tenho a ilusão de ver e sentir coisas e quando dou por mim, só a solidão se encontra no horizonte de toda esta minha alma. E quando falo em deserto, não é desses de areia, mas da ausência do toque, dos sons e odores… imaginem a minha alma como um deserto de areia, nele não iria encontrar uma pegada, um sinal de outro a não ser eu. Sim, tenho a mania de inventar esses sinais de gente na minha alma, é só para esconder a ausência de mundo. Sinto-me como os Deuses que criam o seu próprio mundo, talvez por se sentirem tão sós como eu… com o tempo de tanto silêncio, criamos essa espécie de clones das pessoas que nos fazem falta e ai elas são perfeitas, tudo aquilo que queríamos que fossem... mas continuemos a não sentir nada, são as nossas pegadas fingidas. As vezes basta um olhar distante de essa pessoa para sentir-mos envergonhados e irmos a correr a pagar essas pegadas criadas por nós. Também não nos atrevemos a sentir saudades, porque isso aumenta esse deserto. O facto é que não há gente por aqui, antigamente sim! Abraçavam-me, brincavam à minha volta! Agora resta-me as rugas que o tempo foi deixando, estou frágil ao ponto de o vento quase me tombar. Lá longe vejo casas, também elas em ruínas, já tiveram que às cuidava e se elas tivessem coração iam se sentir como eu… parece que vejo vultos a caminharem ao pé delas, ouço sons que parecem risada. Deve ser mais umas das minhas ilusões, criadas por tanta solidão. Apesar de me custar, as vezes temos essa necessidade de acreditar que existe alguém por perto. Desta vez é uma ilusão forte, com odor e tudo, parece se aproximarem três pessoas… tento me concentrar para apagar mais esta esperança falsa, pois já varias vezes me aconteceu e nada era real e agora, estou mesmo no mundo imaginário e sem conseguir acordar ou não quero… Um homem e duas crianças estavam agora me tocar. Eu sei, é tudo imaginação de um velho há muito tempo abandonado.

- Vejam aqui eu brincava quando tinha a vossa idade com os meus amigos, já está seca, mas era uma bonita árvore…. Vai dar uma bela fogueira para o nosso churrasco. – Pegou na machada e com força derrubou-a, cortando-a aos bocados bem pequenos para as crianças o poderem ajudar a leva-los.

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