A máscara

A chuva batia suavemente no vidro da janela velha,  ele arrastava o dedo no frio do seu respirar que parecia a chuva vindo dentro de si a bater no vidro, desenhava um coração como um sinal que alguém pudesse ver, um sinal de socorro de um coração só.   Já quase ninguém nascia como ele... ao ponto de não se olhar ao espelho, de não sair à rua para não ser apontado com o dedo. Quase sempre ficava ali a enviar sinais para lá longe, onde alguém os pudesse ver, alguém como ele... quando não estava ali na sua janela, andava perdido nos bosques onde podia ir livremente pois já ninguém andava por bosques perdidos e muito menos gente chamada de bela, que não se gosta de sujar, apanhar doenças, porque a vida delas era bela, perfeita e gente como ele quase nunca tinha nada a perder... Gostava também de caminhar por entre a chuva, na noite escura. Apanhou esse gosto quando em criança e era perseguido, ficava escondido no bosque, muitas vezes a chuva. Tinha sido uma vida a fugir da beleza algo que ele tanto queria... na verdade só a desejava para beijar a mulher mais bela que já vira, era um segredo só dele, na verdade era tudo só dele, não havia com quem partilhar. Foi num fim de tarde que a viu quase junto ao bosque, ele escondido ficou espreitando e a partir dai sempre a amou ou melhor, sentia a falta dela, aquela beleza, aquele perfume não o deixava. Raramente a via, mas era como se a visse todos os dias, pois não deixava de pensar nela. Porém, como podia ele feio, desejar algo tão belo, só a Deuses pertence tanta beleza e doçura... Tirou o dedo do vidro frio e apagou o coração, como se alma pudesse sair daquele corpo, saiu pelo bosque sentindo a chuva miudinha a cair lhe na pele e as cores cinzentas, mais belas do que as suas cores, começaram a ficarem escuras tocadas pelos primeiros passos da noite. Ele entrava pela escuridão como se fosse o seu único mundo, era a penas uma fuga para longe da beleza, da luz, do amor. Algo que no fundo o magoava, a beleza de outros revelava o que ele era...  lá no fundo do bosque a solidão o chamava, desejava abraça-lo. Era a sua amante, se deitava nela e acordava despido de tudo. As vezes, parecia ouvi-la caminhar por entre as árvores, dizer: és o meu amor... a solidão parecia viva e aos poucos, ele morria nos seus braços.  Nessa noite, a solidão parecia inquieta por entre as árvores sussurrava: você está cada vez mais perto de mim e logo, o vento fazia a chuva cair nele numa espécie de remoinho. A solidão continuava: mas eu sei que você não gosta de mim, gosta a penas dela... sabia, que a vi hoje? Ele caiu sobre o chão e sentiu-se como um louco, como podia a solidão ter vida? Logo ela sussurrou: estou viva, dentro de ti e quando liberta a sua dor, eu me espalho por aqui... sei tudo de você, ao ponto de me ter apaixonado.  Seria fácil levar-te comigo, porém, isso seria a sua morte... Para ser meu, você tem de desejar querer ficar ou seja, morrer... por segundos fez-se silêncio e a solidão suspirou. Pensei muito neste ponto, na verdade sou como você, ninguém me ama... dizem que magoo, mas eu sou carinhosa, venho quando todos te abandonam,  como não me amam, eu fujo ou me expulsam, sei lá!, mas... de você gosto de verdade e também já estou a ficar cansada de ficar só... então pensei em te ajudar, mas com a promessa de guardar esse segredo. Acho que não precisa se esforçar muito, afinal, eu não existo como um ser vivo para todo mundo. Isso me magoa, sabes... por isso e por amor me revelei para você e se não fosse  aquela mulher...  tenho a certeza de que ficava comigo.  Em fim... o resto da história você conhece também! Vou oferecer a você uma máscara que o vai deixar belo sempre que a colocar, o mais belo dos homens.  Acho que com ela pode conquistar a sua amada e... sei que não vai mais pensar em mim, mas vou dizer na mesma! Não se preocupe comigo, eu estarei por ai... nesse momento sente que algo o beija suave e a máscara cai no chão.  Tudo se calou, o vento, a chuva e ele tentou acordar, .pensando ter adormecido, sempre estivera acordado. Olhou o chão viu a máscara de borracha ou algo parecido, parecia daquelas que se vendem para o Carnaval, pegou nela e correu para o seu quarto.
Quando chegou, fechou a porta a trás de si e deixou a máscara em cima da cama. Ficou um tempo a olhar para ela. Ainda tudo lhe parecia um sonho, a todo o momento tinha a sensação de que ia acordar e nesse pensamento passou a noite, olhando a máscara. Quando o sol começou a estender os braços por entre os montes, ele ganhou coragem e de frente do espelho colocou a máscara sem a encostar ao rosto, não a achava bela, também não sabia como a usar... tentou imaginar mil formas, mas ao tocar com a máscara na pele ela se colou à cara e se moldou ao rosto, ficando carne da sua carne, pele da sua pele mas com os genes da beleza e sem parecer uma máscara. Ele nem queria acreditar, tocou com um dedo na cara e sentiu como se fosse sua carne, sua pele,  tinha todas as sensações, a beleza fazia lhe bem! Nesse mesmo dia passou pelas ruas sem que ninguém o conhecesse, às mulheres olhavam-nos com interesse, sentia-se feliz neste bosque humano e com o passar dos dias, esqueceu quem fora no passado. Até mesmo àqueles  gemidos de alguém a chorar que vinha do bosque que antes era o seu mundo, deixou de ouvir. Também, raramente estava na noite, o seu mundo agora era a luz. Tudo em si tinha nascido de novo, também não tinha esquecido aquela maravilhosa mulher com quem se encontrava todos os dias  e já eram amigos, para dizer a verdade um pouco mais do que amigos e hoje ele ia lhe pedir em namoro em quem sabe beija-la, era o seu sonho de todos os sonhos e agora já nada lhe era impossível! O lugar de encontro com a mulher dos seus sonhos era sempre ao pé da velha fonte, um lugar que parecia só deles. Nos primeiros tempos ele queria leva-la pela rua principal para amostra-la a todos, mas ela nunca quis, dizia-se intimidade pelos olhares. Ele não entendia porque mas tudo bem, o importante para era estar com ela. Nessa tarde antes de ir ter com ela passou perto do bosque para ir apanhar uma flores, não sentiu nada em relação ao seu eu que antes andava por ali, achava o bosque demasiado escuro e ele queria a luz, ele era luz. Foi talvez a única vez que se voltou a lembrar quem foi depois de ter a máscara, hoje pensava ter sido um pesadelo.  Ele nunca fora feio, nunca! Depois voltou para a sua mulher de sonho, não dizia amada por ainda não ser o seu amor.  Como sempre ela estava sentada na fonte a brincar com a água, fazendo ondas com as mãos, nem uma sereia faria algo tão belo... mal o viu correu para o abraçar.
-lindas flores... para quem serão?  - reparou ela, sabendo já serem para ela.  Pois dentro do coração dela também sentia um amor enorme. Sonhava que ele a ama-se, mas um rapaz tão belo...será que ela merecia tanto? Ele fez rodopiar a mulher nos seus braços e o céu parecia dançar com eles e ai sem lhe dar tempo para se recompor pediu-a em namoro. Ela sorriu e disse: vou pensar! Mas logo se atirou para os braços dele e aproximou seus lábios virgens dos dele e foi quando a breves milésimos de segundos de os lábios se tocarem que a máscara dele caiu e ele ficou tão envergonhado por àquilo que era fugiu tapando o rosto pelo bosque a dentro e nunca mais ninguém o viu. Uns dizem que foi comido por lobos, outros que ficou louco e anda pelo bosque como monstro, vingando-se de toda a pessoa que é bela.  Os gemidos  a noite voltaram se ouvir, quem vivia perto sentia arrepios.


Ela ficou como estátua até cair em si. Fez o caminho para casa a chorar com a sua má sorte para o amor, tinha o coração magoa, quebrado em mil e um pedaços, mais do que às estrelas que ela costumava contar do seu quarto e foi ai que foi ficar, assentada em cima da cama chorou até não poder mais. Esteve quase, pensou... olhou-se ao espelho, limpou as lágrimas e tirou a sua máscara da beleza, nunca mais a ia voltar a usar.

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