A lenda da lua

Em volta da lareira o avô começava a contar: Numa aldeia pequenina, perdida no tempo, onde as pessoas se conhecem todas e sabem tudo de todos. Existia uma casa abandonada, um pouco afastada da aldeia, lá no meio de um pinhal. As pessoas lembravam-se de essa casa por se dizer que estava amaldiçoada, era um lugar onde ninguém gostava de estar e dos poucos que se atreviam andar por ali, acabavam por ver coisas assustadoras, numa noite de lua cheia, o pai do meu avô materno (o vosso bisavô), viu lá um estranho a cuidar do jardim, que não era mais do que um monte de erva seca. Os outros da aldeia duvidavam dessa visão, já que nunca ninguém se vira por ali há muitos anos, a não ser os da aldeia. No dia seguinte a roseira estava cheia de rosas. Alguns fizeram-se fortes e foram ver, viram que o jardim ontem seco, tinha hoje rosas, era um pedaço de paraíso plantado ali, nunca mais as rosas vermelhas se acabaram ali nas noites de lua cheia. Isto se passou, há cem anos ou muito mais! Também não importa! O que realmente é importante, é a lenda em si ou a história, falava-se de uma personagem misteriosa e do seu amor pela lua, amou-a como uma mulher. Dizia ele! Contava-se que ali vivia um jardineiro que amava tanto o seu jardim, que até nos dias de chuva regava o seu jardim. A água a chuva não tem o mesmo amor, dizia quando questionado. Muitas vezes se via de noite a cuidar do seu jardim. Mas numa noite de lua cheia, ele se apaixonou pela lua e sempre que a via, lhe oferecia uma rosa. Quando o inverno chegou ele pouco via a lua no céu, pois as nuvens chuvosas a tapavam e ele morria de saudades de a ver. Muitas vezes a aldeia ouvira aquele homem chorar de noite, era uma dor mais negra do que a noite, ao ponto de doer no coração de todos. Era um amor impossível, um homem amar a lua, como podia? Todos achavam que o homem enlouquecera, mas sempre fora estranho, vivia afastado deles ou eles dele mas a verdade é que era como se não fizesse parte a aldeia, ninguém sabia nada dele. Numa noite de lua cheia ouviu-se risos durante a noite e depois na aldeia se fez silêncio, nunca mais ouviram o homem, deixou de cuidar da roseira e aquele inverno, pareceram anos e ate a casa parecia ter sido abandonada. Um dia esse pai do meu avô (o vosso bisavô) se atreveu aproximar-se, passar o jardim e bateu à porta e ela caiu, em poucos meses aquilo tinha ficado em ruínas, abandonado. Disse que ele não aguentou e correu atrás da lua, nunca mais parou de correr, outra versão que ela o levou. A verdade é que nunca mais aparecera e todas as noites de lua cheia a roseira floria e dava as mais belas rosas da aldeia. Ninguém na aldeia se ousaria a colher uma daquelas rosas, pois quem ousara cometer esse acto a lua castigava e nunca mais tinha aparecido.


Era apenas o que se sabia, mais não conseguiam explicar. Era impossível, como o amor dele… foi quando quis usar aquela casa para um cenário de uma curta-metragem, que fiquei a conhecer a lenda do estranho homem que por ali viveu e se apaixonou pela lua. Tinha chegado num dia de lua cheia. A casa era rude e com um aspecto macabro. Quis usa-la, apesar do olhar de lado das poucas pessoas que ainda viviam na aldeia. Mas lá no fundo havia em mim o desejo de provar que a lenda era como todas as lendas, uma forma cativante de contar a vida de um lugar ou personagem. Provavelmente aquele homem seria rejeitado pela aldeia, enlouquecido e esquecido, morreu por li e com ele as suas rosas. Resolvi dormir lá umas noites, até a próxima noite de lua cheia. Depois de passar um dia fora para ir buscar umas coisas, era de noite quando cheguei, a aldeia estava silenciosa como se não houvesse lá ninguém, estava cansado. Os primeiros dias na casa foram desconfortáveis, já que a casa há muito que tinha deixado de ter a função de casa, mas foram noites tranquilas, tirando os sonhos sobre a lenda que me invadiam de noite, como o cobertor que me cobria o corpo. O dia passava-os a filmar pormenores daquela estranha casa, no fundo era uma casa bem típica de uma aldeia antiga, paredes de perda nua e um telhado de xisto, como era hábito na zona. A única coisa insólita para uma casa desse tipo, era na sala que ficava no centro da casa haver um circulo no telho, por onde se via o céu. Talvez dai, venha a lenda! Porém a coisa mais estranha que tinha a casa, era uma sensação de ter vida própria, de haver por ali uma sensações estranhas, respirares, sons… talvez seja a imaginação por toda aquela lenda, mas confesso que senti isso assim que vi a casa, mesmo antes de conhecer a lenda! Lá fora havia um jardim, ou melhor, um pequeno largo rodeado de pinhos e fracos vestígios de uma roseira, que delas só podia imaginar o perfume teriam. Os pinheiros altos faziam daquele lugar um refúgio bem escondido, onde parecia dormir ali o silêncio. De acesso à casa havia apenas um estreito caminho, chamado por ali um caminho de machos, ou bestas! Quantos mais dias passava ali, mais eu me sentia parte da lenda e acabei por deixar de filmar, cuidar da roseira, regando-a, tirando a agua de um velho posso ali ao lado. Não sei bem, acho que no princípio era só um regador por dia, talvez dois… mas cada dia me deitava mais cansado e apesar de isso, a roseira se mantinha seca, morta como quando ali cheguei. Um dia fui mesmo à aldeia pedir ajuda, para dar vida à minha roseira, já era assim que lhe chamava… foi quando descobri que na aldeia não havia ninguém, na verdade todas as casas estão em ruínas como aonde eu vivia. Como era possível, teria eu sonhado aquilo ou ainda estaria dentro do sonho? Assustado, tinha de voltar! Estava isolado do mundo, minha mente também se abandonou por ali e não consegui pensar, a não ser na roseira! Voltei à casa e retomei a minha luta pela roseira. Mesmo com tudo que lhe fazia, ela se mantinha na mesma, havia dias que acreditava que havia algo de novo nela, um certo verde de vida, mas noutros via tudo igual! As noites era acompanhadas por sonhos cada vez mais reais, uma noite sonhei atravessar a minha linda roseira e acordei cheio de arranhões, iguais aos que os picos das roseiras fazem… cada vez mais para mim isso era indiferente, a minha obsessão em cuidar da roseira. Numa das noites acordei como se alguém me chamasse, vi uma luz muito forte na sala da lua, (era assim que já lhe chamava a sala com um buraco para o céu). Entrei nela e do círculo pude ver a lua cheia, parecia entrar dentro da sala, como se a casa fosse dela. É noite de lua cheia, pensei! Correi para o jardim e vi as mais belas rosas que alguma vez vi, o seu perfume era como um orgasmo na minha alma. No ar, iluminadas pela lua havia pétalas de rosas, pareciam suspensas e tudo aquilo, não era imaginação minha. A lenda era real, eu tinha ali a prova e resolvi ficar com uma rosa e colhi uma delas, pois eram todas belas. Fiquei a noite toda ali dançando entre as pétalas suspensas, ate o dia amanhecer e tudo voltou ao normal, não havia já roseira, como se nada tivesse existido. Mas eu tinha a rosa na mão, era a minha prova. Estava na hora de voltar ao meu mundo, na verdade sentia-me como se tivesse dormido um longo sonho e só ter acordado agora. Voltei à aldeia abandonada com a rosa na mão. Para minha surpresa, já não estava abandonada e cada pessoa tinha uma rosa. Estavam tristes, não entendi porque, toda aquela noite tinha sido maravilhosa! O melhor era despedir-me e ir, abracei alguns dizendo-lhes adeus e eles abanavam a cabeça que não e fui! Andei por todos os caminhos e nunca saia da aldeia, fui muitas vezes até me cansar e sempre cheguei a aldeia. Cai por terra e percebi que todos eles tinham colhido uma rosa, todos eles eram prisioneiros da lua para toda a eternidade, tal como eu… agora existo no nada e só na noite de lua cheia voltamos à vida, sim foi numa noite de lua cheia que tinha chegado a aldeia, por isso os vi e não os voltei a ver enquanto não fiz parte do grupo. A minha vida, era agora ser uma rosa

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