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A mostrar mensagens de Março, 2015
A lenda da lua
Em volta da lareira o avô começava a contar: Numa aldeia pequenina, perdida no tempo, onde as pessoas se conhecem todas e sabem tudo de todos. Existia uma casa abandonada, um pouco afastada da aldeia, lá no meio de um pinhal. As pessoas lembravam-se de essa casa por se dizer que estava amaldiçoada, era um lugar onde ninguém gostava de estar e dos poucos que se atreviam andar por ali, acabavam por ver coisas assustadoras, numa noite de lua cheia, o pai do meu avô materno (o vosso bisavô), viu lá um estranho a cuidar do jardim, que não era mais do que um monte de erva seca. Os outros da aldeia duvidavam dessa visão, já que nunca ninguém se vira por ali há muitos anos, a não ser os da aldeia. No dia seguinte a roseira estava cheia de rosas. Alguns fizeram-se fortes e foram ver, viram que o jardim ontem seco, tinha hoje rosas, era um pedaço de paraíso plantado ali, nunca mais as rosas vermelhas se acabaram ali nas noites de lua cheia. Isto se passou, há cem anos ou muito mai…
O quarto
No meio de uma estrada perdida encontrou uma velha placa, seca de vida e onde se lê o quarto. Com uma seta apontando para um caminho ainda mais perdido, quase tomado pela vida selvagem. Apesar de grávida a curiosidade levou-a por esse caminho e a medida que avançava, às árvores pareciam fechar o caminho atrás de si, até se sentir parte da floresta. Caminhando com dificuldade, dá com uma espécie de largo rodeado de árvores altas que o nome desconhece e só conseguia ver o céu, que parecia mais alto do que nunca! No meio de este lugar escondido estava uma construção velha, sem janelas a penas com uma porta bem velha e uma placa ainda mais velha, onde estava marcado a fogo uma frase “O quarto-entre e assente-se saia quando a porta se abrir”. Ficou receosa, mas muito mais curiosa e empurrou a porta que fez barulho como se tivesse acabado de acordar. Espreitou e o quarto estava vazio, tira-se uma velha cadeira, mas luxuosa e um grande espelho, nada mais havia ali! Existia uma fraca …
Imagem
Às vezes sinto saudades de pessoas que já não estão neste mundo e que me eram queridas. Imagino se elas não sentiram às mesmas saudades... Se eles viverem numa espécie de um mundo paralelo ao nosso, numa dimensão qualquer que nós não conseguimos ver. Imagino se eles nos viessem buscar, será que queríamos ir com eles?
O jantar era servido sempre ao som das notícias na televisão, normalmente comia-se sem dizer nada, com os olhos postos na televisão como se tivessem medo de se olharem nos olhos. Eram uma família, mas se portavam como se fossem os únicos habitantes em casa, quando falavam uns para outros, era como falarem sozinhos.  Naquela noite fria de Inverno não era diferente, só por momentos pararam de comer para dar atenção uma notícia estranha: numa aldeia na Sibéria, os pássaros deixaram de voar e caíram mortos no chão, eram milhares deles. Um cientista achava ter morrido de frio, mas a verdade é que nunca se vira algo assim, mesmo nos dias mais frios! O pai que quase nunca dizia n…
Parabéns
Pede um desejo, diz alguém! Enquanto se preparar para apagar às velas, tantas como o número de anos que já viveu. Nesses anos todos, não se lembra de um desejo pedido que se tenha realizado, apesar de cumprir a tradição. Também nunca conseguia apagar às velas todas de uma vez só, talvez fosse por isso que os desejos não se realizavam... Na verdade, nem acreditava naquilo e nem gostava de essas confusões, de muita gente há volta e para ele cinco já eram muitas. Não sente que tem essa idade. Porém não o deixam ser da idade que realmente tem, não a do seu nascimento, mas a que sente. Não será essa a mais sincera? Já não tens idade para essas coisas... Dizem! Até às coisas têm idade para fazer, depois há que fazer outras mesmo que não gostes delas. Foi por isso que acabou num emprego que não gostava, ele queria ser palhaço mas já não tinha idade para isso. Apesar de sempre fazer rir os outros, mesmo sem pinturas. Quando era novo a mãe apanhou-o a pintar os lábios, foi um daqueles …
Memórias do Douro e do meu Avô

parte 1
O primeiro contacto com o Douro foi em criança, quando o Douro era também uma criança. Os meus avós eram feitores numa quinta, bem a beira do rio e eu ficava lá com eles, cedo me tornei um amigo do rio. Naquela altura, era um rio diferente do que é hoje, na verdade ambos crescemos e nos tornamos adultos. Apesar de viver agora mais afastado do rio, tenho memórias maravilhosas do Douro, quer visuais, tácteis ou olfactivas. O rio que me viu crescer, era forte e de águas claras. Não quer dizer que fosse menos poluído, mas era mais cristalino e selvagem! Pelo menos é a imagem que guardo dele nas minhas memórias de infância. Lembro-me das manhãs de nevoeiro em tons de fantasia, dos dias de sol cantados pelas aves e dos momentos com mais impacto, como as cheias que assustavam a minha avó sempre comentadas daquelas grandes cheias em que o rio tinha chegado ao telhado das casas. Eu ficava fascinado e lá no fundo, queria que o rio chegasse mais perto. Se a m…
Red/A minha curta-metragem escrita
Cenário: Uma paisagem toda branca, como se fosse recortada em papel. .
Personagem: Uma mulher vestida de branco (Eva)
Cena: A mulher caminha devagar pelo cenário, deixando a palma da mão bater docemente nos arbustos olhando a paisagem, como uma criança na descoberta do mundo. Tudo é branco, toda a cena parece passar em câmara lenta, focando nos pormenores, as borboletas que voam de flor em flor, os pássaros lá no céu, o rosto inocente dela. Sempre caminhando, até chegar à macieira com a maçã vermelha, ela com um olhar de curiosidade, aproxima-se e por breve momentos ínsita toca-lhe, lambe os lábios e toca-lhe com uma caricia, tudo parece ser eterno e tudo passa para um segundo brusco, aperta-a forte e colhe-a, dando-lhe uma dentada, sente o doce na boca e grita deixando cair a maça. Seu corpo sente prazer e num bailado de movimentos sensuais e ternos, como se câmara a despisse, em câmara lenta, a profundidade da sua alma se liberta. Ela grita, deixando …
A máscara
A chuva batia suavemente no vidro da janela velha,  ele arrastava o dedo no frio do seu respirar que parecia a chuva vindo dentro de si a bater no vidro, desenhava um coração como um sinal que alguém pudesse ver, um sinal de socorro de um coração só.Já quase ninguém nascia como ele... ao ponto de não se olhar ao espelho, de não sair à rua para não ser apontado com o dedo. Quase sempre ficava ali a enviar sinais para lá longe, onde alguém os pudesse ver, alguém como ele... quando não estava ali na sua janela, andava perdido nos bosques onde podia ir livremente pois já ninguém andava por bosques perdidos e muito menos gente chamada de bela, que não se gosta de sujar, apanhar doenças, porque a vida delas era bela, perfeita e gente como ele quase nunca tinha nada a perder... Gostava também de caminhar por entre a chuva, na noite escura. Apanhou esse gosto quando em criança e era perseguido, ficava escondido no bosque, muitas vezes a chuva. Tinha sido uma vida a fugir da beleza al…
Jasmim
Jasmim, ao contrário de outros anjos. Era um anjo feio, no meio da beleza celestial. Por isso era olhado de lado pelos outros anjos, não o mostravam abertamente, mas a verdade é que o faziam e ele se sentia triste. Mais triste ficava quando nascia uma nova alma humana e para ela era escolhido um anjo da guarda, ele tinha sempre esperança de ser o escolhido, porém nunca isso aconteceu! Ficou esquecido numa nuvem como se fosse um objecto velho que ninguém queria. O tempo foi passando e as asas de Jasmim, já por si feias, começaram a ficar com as penas murchas, como as pétalas de uma flor seca e as asas secaram, caíram. Perdeu assim a última esperança de ser um anjo da guarda, como tanto sonhará. Afinal, os anjos como ele nascem para guardar almas ou melhor, os anjos bonitos...pensou ele! Nesse dia se sentiu muito triste e deixou cair umas lágrimas, que foram notadas por um anjo que na altura regressava da sua missão. Isso é muito estranho, pois um anjo não chora, não têm sentiment…
O monstro
A solidão é o muro que separa o humano do monstro, de qual lado estou? Depende do momento...
Por mais que sejamos bons, se todos dizem que nos virem como um monstro, acaba por ser essa a verdade! Acho que foi assim que me fui tornando um monstro, quase sem sentir a diferença entre ou que sou e o que fui… pouco me lembro da aldeia onde passei uma infância quase normal, tirando o meu aspecto um pouco de louco. Toda a gente me aceitava como um deles ou talvez escondessem o seu medo de mim. Tentava sempre ser igual, agradar o mais possível e ser bom, não ter pensamentos impuros. Por mais que algumas mulheres me deixassem com esta minha vontade impura de existir, este meu lado selvagem, de o monstro que se escondia talvez em muitas noites de lua cheia. Eu fui tão bom a ser humano ao ponto de sentir o sentimento mais nobre do ser humano, o amor. Por uma mulher, alguém que parecia ser tirada de um sonho mais belo... mas seus olhos as vezes pareciam fugir dos meus para um espaço vazio…
O menino a preto e branco
Madalena era uma menina crescida, apesar dos seus 5 aninhos, já chegava as coisas altas e já tinha namorado. Eram argumentos fortes para convencer a mãe, que teimava em trata-la como bebé. Só pode ser coisas de mãe, pensava ela e fazia birras por tudo e por nada! Hoje estava caladinha, enquanto a mãe a tentava vestir à pressa, iria sair com a ela fazer compras de natal e esperava conseguir o que queria, para além de ver as ruas todas cheias de luzes, de mil cores. Como é lindo o natal, pensava para si. Na verdade nem compreendia porque não era sempre natal, se é tão bonito… coisas de adultos! Antes de a mãe a puxar para fora de casa, agarrou na grande lista de presentes para entregar ao pai natal e meteu-a no bolso do casaco encarnado. A mãe dá um último retoque ao gorro, também ele de um encarnado vivo e lá foram de mãos dadas. As ruas estavam todas cheias de luzes, havia muitos anjinhos, árvores de natal, sinos, enfim, um mundo de cor! Apetecia-lhe deixar …
A árvore
Não me custa acreditar, se realmente existe essa sensação… costumo ser céptico a essas coisas, as emoções costumam ser como uma ilusão óptica, pois parece que sentimos o que depois não as encontramos. Para mim o mundo sempre fui assim, um deserto onde tenho a ilusão de ver e sentir coisas e quando dou por mim, só a solidão se encontra no horizonte de toda esta minha alma. E quando falo em deserto, não é desses de areia, mas da ausência do toque, dos sons e odores… imaginem a minha alma como um deserto de areia, nele não iria encontrar uma pegada, um sinal de outro a não ser eu. Sim, tenho a mania de inventar esses sinais de gente na minha alma, é só para esconder a ausência de mundo. Sinto-me como os Deuses que criam o seu próprio mundo, talvez por se sentirem tão sós como eu… com o tempo de tanto silêncio, criamos essa espécie de clones das pessoas que nos fazem falta e ai elas são perfeitas, tudo aquilo que queríamos que fossem... mas continuemos a não sentir nada, são as no…
O último anjo
O som da sua respiração, quase ocultava às vozes que atrás de si vinham, corria o mais que podia. Mas pareciam cada vez mais perto de si. Naquela noite escura, o pinhal não era um bom sítio para escapar, muitas vezes caia na caruma seca, ou avançava por entre às silvas que o arranhavam sem o sentir. Não tinha outra alternativa, não podia escolher, só pensava avançar e sair dali e se conseguisse, teria muita sorte! Muitos dos seus companheiros foram apanhados e queimados como monstros nas fogueiras, na verdade, restavam apenas três dos milhões que havia no seu grupo e ele estava preste a ser o próximo. Seu coração assustado batia forte, queria pular do peito e fugir daquela corpo que cada vez andava mais, do que corria. Era o cansaço total a tomar conta de si. Arrastava-se por entre o pinhal, cada vez mais fechado, como se o tentasse agarrar… não ia desistir! Apesar de não ter mais forças e de sentir tão velho e doente. Tentava concentrar a sua mente, mas ela também parec…
Abismo
Ela parecia dançar a beira daquele abismo, com os cabelos acariciados pelo vento e uma cerveja na mão, fazia balançar o corpo para o vazio. Gritava: diz que me amas! Sem nunca tirar os olhos do céu, como se tivesse preste a voar… Sim! – Gritava eu, amo-te acima de qualquer coisa! Ela sorria, abrindo os braços para o céu. Não se preocupava onde punha os pés, sempre parecia ir saltar…  - Então vem voar comigo… és capaz de me dar a tua vida? - Dizia olhando para mim com aquele olhar misteriosamente belo e um sorriso embriagado. Aproximei-me devagar, como se ela pudesse assustar-se e voar.  – Sim, sou capaz de dar a minha vida por ti, tu és a minha vida – as minhas palavras foram pronunciadas com o som do trovejar de fundo, a banda sonora perfeita para aquele momento. O perfume a terra molhada era intenso, vinha ai a tempestade. Abriu os braços para mim e disse: Vem abraçar-me… corri como se ela fosse saltar para o abismo e abracei-a forte, balançamos entre a terra e o ar. Por cima do…
Imagem
Sempre que uma amiga me dizia que se ia casar. Eu dizia-lhe, que seria das noivas mais belas, só não seria a mais bela, porque essa seria a minha. Hoje casa-se a noiva mais bela com um amigo meu. Desço as escadas da igreja com mais dor do que as subi e em cada movimento que me leve para longe dela, é uma faca que despedaça o coração em mil pedaços. O meu andar é desnorteado, como se caminhasse perdido num deserto quase sem vida. Uma subtil brisa parece querer limpar as lágrimas, que os meus olhos deixam cair como pegadas que ela pudesse seguir. Caminho até não poder mais, apoio -me a um poste de iluminação e senti o telemóvel tocar, procurei-o no bolso e deitei-o no lixo. Olhei para o céu como se ele pudesse agarrar -me e levar para longe dali… mas não, nada se interessava! Nem tão pouco chovia! Estava um dia ideal para se casar, a escuridão era só minha… suspirei e abandonei o meu apoio, continuei andar, desta vez, ainda mais lentamente. Sou um tipo banal, as mulheres não se apaixona…